sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Procon-SP suspende evento tradicional




O 31 Encontro de Defesa do Consumidor , que aconteceria nos dias 10 e 11 de setembro, na AASP (Associação dos Advogados de São Paulo) foi repentinamente suspenso pela  Diretoria Executiva do Procon às 17 horas do dia 08 de setembro, sob alegação de contenção de despesas.
Em comunicado intranet, postado às 17 horas do dia 08 último, assinado pela diretora  executiva Ivete Maria Ribeiro, citando o decreto 61.466 de  02 de  setembro (cujo conteúdo diz  respeito tão só a contratação ou não  de novos servidores, concursados ou não), “Esta Diretoria Executiva, por determinação do Excelentíssimo Senhor Secretario de Justiça, SUSPENDE o 31 encontro de Defesa do Consumidor.”
Para a AFPROCON (Associação dos Funcionários do Procon) causou  estranheza o cancelamento em cima da hora, haja vista que o programa de contenção de gastos do Governo Alckimin foi decretado em fevereiro  e, se fosse o caso, o desgaste - e os custos - com os 540 inscritos, mais as despesas de transporte, hospedagem, suporte para o evento, material gráfico e o cancelamento dos convites com os palestrantes não teria acontecido.
NCFS, há 9 anos no Procon de Ilha Solteira, foi um dos inscritos que não souberam do cancelamento a tempo, e  viu sua viagem de 14 horas ate São Paulo tornar–se inócua. Como há  representantes de outros estados, é possível que outros interessados em discutir os rumos dos direitos do consumidor percam também a viagem.
Como havia uma manifestação da AFPROCON, programada para o dia 10, com pauta de dissídio coletivo, reposição salarial, viabilização das carreiras, jornada de 6 horas nos postos de atendimento público, licença maternidade de 180 dias, resgate técnico da Fundação, sob a contrariedade da Diretora, fica a suspeita da verdadeira razão da suspensão de um evento que antecede à própria origem do Procon.

Maiores informações:

Manuel Amaral da Silva
Presidente da AFPROCON

 edman izipetto
jornalista mtb 13677
izipetto.edman@gmail.com

sábado, 9 de agosto de 2014

É father

Não sentimos as dores de um ser empurrando nosso ventre, pois estamos ocupados na angústia de perceber a mulher perdendo suas formas e tornando-se mais suscetível aos nossos atos de pouco tato.
Participamos do parto como meros espectadores, até filmamos toda aquela divina violencia que é uma vida transpondo para cá a sua viagem neste louco mundo.
Precisamos de milhões de espermatozóides, elas apenas de um óvulo. Não entendemos as vontades, os desejos, os caprichos, mas deve ser o preço da perpetuação da espécie.
Mas a maneira como entendemos o mundo muda quando vemos aquele ser, ainda inchado, nos braços da enfermeira, ou amamentando, pois o mais próximo disto que chegaremos é comprar leite no mercado.
Pai é o coadjuvante candidato a Oscar, e nem sempre ganha...

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A copa e a área de serviço

Foi o futebol que colocou o Brasil no atlas. Até então éramos uma imensa floresta tropical cuja capital era Buenos Aires. Corria-se o risco de levar uma flechada pelas trilhas da Av. Paulista e, a garota de Ipanema era o sonho idílico de Peri, numa toada sem tambores e atabaques, mas no canto de guerra da Bossa Nossa, o samba civilizado pelo jazz.
Foram-se os tempos românticos do esporte, que roubou as gingas da capoeira e a determinação de liberdade de um povo, forjado nas altas temperaturas da exploração e derrama, tirando o pouco que tem sem devolver o mínimo à sobrevivência digna. O futebol sempre foi uma destas válvulas, deixando escapar a pressão de maneira controlada, cozinhando a existência numa sopa de indiferenças.
A copa não é a razão de todos os nossos problemas, nem vai resolvê-los quando ocorrer a batalha final dos gladiadores modernos na Arena Maracanã, porque a morte psicológica de uma derrota é tão sangrenta quanto as que ocorriam no império romano. Nada mais apropriado hoje chamar de arenas os estádios, já que era assim que se mantinham no poder os que dele apenas se beneficiavam... Não me refiro ao poder das siglas, mas daquele escamoteado pelos corredores, pelos porões da corrupção, que rouba desde as quentinhas dos presídios, às merendas, às salas de educação e saúde, às moradias, que sangra a nossa riqueza há 500 anos. Sempre os mesmos anônimos.
O futebol nos colocou no mapa, e é ele quem vai nos desnudar. Que nem tudo aqui é festa, carnaval, beleza natural e um povo pacífico, alheio, de terceiro mundo. Tudo estará em tempo real, mesmo que as transmissões oficiais relatem, e é isto que irão fazer, o que chamam de espetáculo, sempre haverá uma imagem pelos milhões de celulares, ávidos por registrar e divulgar seus chips de realidade.
Fizemos uns "puxadinhos" (Doze templos cuja única razão é distrair), amontoamos nossas tralhas num quarto vazio, deixamos nossa sala para os visitantes, e vamos assistir a Copa de nossas áreas de serviço - entupidas de coisas por fazer - onde nem sempre as ondas de transmissão sintonizam, onde o rádio chia, as televisões chuviscam, mas tudo se esquece, como num porre, ao gritar Gol.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Histórias de Dona Dgmar

Minha bisavó, Antônia (não lembro os outros nomes, mas tinha Quadros no meio, é dele mesmo, todo mundo tem o lado negro na família) é a pessoa mais marcante da infância de minha mãe. "Ela é a mãe de minha avó, Rita Duarte, tão submissa, mas que nunca assinou o sobrenome do meu avô, Santucci. Esta é outra história...."
Tinha na minha mãe a neta favorita, a companheira de tarefas. Como a de colher e escolher as mangas espada, tão raras hoje, no número de cem, para o comerciante português (já perceberam que sempre é um português), cuja cobrança era apenas um disfarce para não dizer que era doação. Minha mãe não lembra dos valores, mas guarda em suas lembranças as cores, o perfume e o prazer de estar embaixo de um pé de manga. Dá gosto vê-la devorar uma, com fibra e tudo, hoje em dia.
O quintal destas fantasias era em Salto, SP, próximo ao Rio Jundiaí, onde ele se junta ao Tietê para formar o que dá nome à cidade, Saltos de Itu (em indígena é rio, são cachoeiras), que sempre aparecem no noticiário negativo da TV na formação de espuma. O lugar é lindo, basta a Grande São Paulo parar de blá blá blá e cuidar do esgoto e do sabão biodegradável.
Mas neste quintal tinha um universo. O universo da minha mãe. Galinhas poedeiras e raposas pegas em armadilhas, todas as frutas possíveis, todas as verduras, e principalmente, todas as ervas. Minha bisavó era católica fervorosa, mas benzia, despachava e encaminhava. Era uma pessoa incrível, pela descrição de minha mãe. Quando precisava, ia no terreiro "encaminhar os caminhos". Uma frase que minha mãe disse neste reveillon me inspirou a escrever esta crônica.
Um irmão que morreu por falta de conhecimento e saúde pública, não sei a época e isto é irrelevante (porque continua igual), mas que minha mãe tinha verdadeira paixão, foi vaticinado pela minha bisavó: "Esta criança é muita linda, não vai durar muito no meio de tanta gente feia como vocês". Eu queria a máquina do tempo só para conhecer esta mulher... Ele morreu criança, vítima de pneumonia, por falta de atendimento adequado.
E ela fazia sabão de cinzas, ótimo para combater as sarnas dos animais de estimação. Estamos falando da década de 30, 40. Ela doava os sabões quando era para este fim. Não tinham nada, viviam a vida simples, mas doava sabão de cinza para curar um animal que nem conhecia. É ou não para conhecer uma figura assim...
E meu bisavô, Joaquim Duarte, mais conhecido como Nhô Quim (adorei), era carpinteiro, e odiava que o chamassem de marceneiro. Eu até agora não entendo a diferença, espero que alguém me ajude. Foi quem ensinou as horas para minha mãe. E fazia caixinhas de madeira onde minha bisavó guardava goiabadas, marmeladas e outros doces, sem conservantes, sem geladeira, que duravam tempos, das frutas colhidas e apuradas no tacho de cobre, sobre o fogo à lenha. Este era o segredo, segundo Dona Antônia.
Apaixonante é ver o brilho nos olhos de minha mãe quando conta estas histórias, principalmente sobre meu pai, na visita mensal depois de ir trabalhar na Capital e voltar de trem, sempre com um presentinho, namorando na sala/copa, extrapolando o horário definido pelo chato do meu avô, sem lenço e sem documento, apenas amando minha mãe. Eu tenho pedigree...

Edman
02/01/2014

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Ritual de passagem

Já passei o Reveillon na praia, na montanha, na casa dos amigos, de parentes, na minha, com a família, sem a família, mas acho que é a primeira vez que vou celebrar este ritual comigo mesmo, não vou passar sozinho, mas decidi algumas coisas, não promessas de mesa de boteco, que não pretendo, vou fazer. Uma delas é escrever que é a parte que me deixa mais feliz...
Brasil e Argentina na final da Copa aqui, onde o pessoal da cozinha vai ter que assistir de telões e tv, porque elitizaram o esporte mais popular do país. Neymar x Messi, um jogo para entrar para história, independente de quem ganhe (desde que seja o Brasil, claro), será A DECISÃO.
E a única sexta-feira 13 do ano será em junho, um dia após Brasil x Croacia. Queria ver EUA e Inglaterra jogando neste dia, eles adoram o 13... Sem dúvida o futebol vai dominar o país, o noticiário e os prós e contras até o meio do ano. Depois virá a ressaca, com vitória ou não, uma bela de uma ressaca.
Além do carnaval, que Sampa segue tentando fazer igual aos cariocas, vai ter um belo feriadão com Sexta da Paixão e 21 de abril na segunda seguinte. Às pessoas curtas de idéias e nascidas para carimbar papéis, mesmo que eles não existam mais, o País não para nos feriados, apenas os negócios mudam de foco, porque é o turismo quem fatura com isto, é o comércio, é a grana que circula e movimenta esta imbecilidade chamada de capitalismo.Mas o segundo semestre vai ser duro, nadinha, e ainda com propaganda eleitoral...
Novas amizades, amores, reencontros e despedidas, saudades que reaparecem, lembranças que vão repousar no fundo do lado do esquecimento. A vida é assim, e o grande barato dela é manter-se sereno, tanto nas euforias quanto nas depressões, ouvi isto de um conhecido, parece que é alguma sabedoria oriental, contada de maneira matemática. Eles devem mesmo ser sábios, o ano sempre começa lá primeiro, a esta hora que escrevo isto, eles já estão de ressaca, e o meu Pernil ao Mediterrâneo mal começou a liberar seus aromas inconfundíveis.

Que 2014 seja 100% melhor que 2013
Edman
31/12/2013

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Trégua geral, afinal é Natal

Talvez alguns passem ao largo de tudo isto, por alguma crença, por tristeza, momento, solidão ou até por falta de motivo mesmo. Mas sempre dão uma espiadinha. A generosidade anda solta por estes dias, como querendo compensar todo o ano de egocentrismo. Há um sorriso discreto, mesmo nesta busca desenfreada de consumo e glutonice, que deixa o ambiente mais leve, mais colorido, mais piscante.
E as desavenças, que até então pareciam inconciliáveis, resolvem-se num abraço, na troca de presentes, nos brindes de copos de requeijão às taças bohemias. Na farofa enriquecida de fofocas e picantes comentários, nas aves que não fugiram da degola e no salpicão, que aquele seu parente que só aparece uma vez por ano, faz questão e honra de deter tão secreta receita.
Após meio século de Natais, ufa, a melhor lembrança que guardo deles é descobrindo Sampa, pela primeira vez e antes do apelido, indo de ônibus do longínquo Jardim Maria Estela até a rodoviária, meus pais, irmãos e malas enormes onde cabiam toda a nossa alegria de passear, vislumbrado com todas aquelas luzes, a gritaria, a voz do megafone anunciando as partidas, sempre atrasadas pontualmente.
Certeza que haveria um sanduíche de pão de forma, com uma fatia de apresuntado e outra de queijo prato, uma fartura para nossas vidas periféricas, e ainda tínhamos direito a um gibi, para ler durante as deliciosas e intermináveis horas de viagem até Salto, onde nossos avós e o resto da família nos aguardavam com panetones caseiros e um festival de guloseimas que só casa de avó é capaz de ter e inventar. "Bença" vó. Não lembro de ceias, sempre dormíamos cedo, mas tinha alguém vestido de Papai Noel que entregava presentes, antes das novelas, transitando pelas ruas de paralelepípedos numa kombi enfeitada e transvestida de trenó. E tinha a mesa dos adultos, e a mesa das crianças, onde nos afogávamos de tubaína sob a vigilância severa dos pais, com medo que toda aquela água viesse a sair durante o sono nos colchões sinfônicos de palha seca.
Tudo simples, tudo inesquecível.
O espírito de Natal, na verdade, é a criança adormecida que trazemos dentro de nós e vê, nesta época, o portão semi-aberto e escapa, vai solta traquinar e brincar de ser humano, sem diferenças, sem preconceitos, na inocência de que pode haver um mundo mais justo, do tamanho do quintal dos avós, onde as fantasias sobem nas mangueiras e cajueiros, as galinhas botam ovos de verdade e as cercas, de bambus cortados ao meio, permitem que se espione os brinquedos vizinhos.
"Há um menino, há um muleque,
Morando sempre no meu coração,
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão"

Feliz Natal a todos
Música tema, Bola de Meia, Bola de Gude
Edman
25/12/2013

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Sob a garoa paulistana



Antes da civilidade, São Paulo era uma bacia hidrográfica protegida a leste pela Serra do Mar, e suas quaresmeiras, e a oeste pela Mantiqueira e os resquícios de araucárias. A peculiaridade de nascentes bem próximas ao litoral correndo para o interior ajudou na sua conquista. As corredeiras do Tamanduateí eram a via expressa de quem subia do litoral até o porto de Piratininga, parada obrigatória antes da viagem para os sertões. Muitas fogueiras foram acesas onde hoje o majestoso Mercadão distribui seus quitutes.
Das elevações secundárias, o maciço da Paulista dividia as chuvas entre o vale do Pinheiros e o do Anhangabaú. O sinuoso Pinheiros inundava toda várzea de seu nervoso trajeto formando um alagadiço em meio à Mata Atlântica, criadouro natural de peixes e o “ceagesp” dos animais de caça. O Anhangabaú, por sua vez, escorregava transparente entre pedras, escavando e separando o centro velho do centro novo, dois platôs repletos de ipês, jacarandás e manacás históricos.
Todos os rios, riachos, córregos e olhos d’água declinam para o Tietê. Os Bandeirantes usaram este rio para aumentar as fronteiras do então novo “continente”, na fúria cega de ouro, pedras preciosas e captura de indígenas. Os jesuítas os catequizavam e ambos, religiosos e exploradores, dizimaram os nativos à sua maneira, ensinando latim e espalhando sífilis numa guerra de bacamartes contra flechas.
Neste ambiente úmido, repleto de mosquitos, a névoa era tão densa que se precipitava na forma de garoa, presente o ano todo, independente da estação. As trilhas foram pavimentadas, as mulas trocadas por veículos – embora existam mulas conduzindo veículos – e o trem ajudou a temperar as palavras com fumaça e dialetos, ligando o porto de Santos à Luz.
A cidade foi crescendo às margens das águas, de costas para o mar, subindo as encostas e terraplanando a idéia de paraíso, como um grande porto a desembarcar os sonhos de migrantes e imigrantes. Das buchadas à macarronada, das esfihas aos sushis, da fruta pão às baguetes, a capital da pizza está encharcada de sabor e história que o grande rio insiste em levar para o Oeste.
Hoje muitos destes cursos d’água estão escondidos, talvez envergonhados pelas suas entranhas à mostra, saturados da diarréia insana do consumo e das palafitas feitas de cimento e descaso, que roubaram a ciliaridade de suas margens como placas de colesterol e trigliceris. Os rios de Sampa são sua artéria, as veias as avenidas. Tudo está entupido. Não há mais bandeirantes, mas a caça continua entre tribos de balas perdidas e suas pedras escuras cheias de loucura. Não há mais jesuítas, mas os “sacerdotes” de hoje, que não falam latim, continuam a querer catequizar e vender indulgências. A garoa de hoje é apenas a poeira tóxica da inversão térmica.

Sampa merece um futuro melhor.
Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade terá sido mera (ou quimera) coincidência.
Edman Izipetto
25/01/2013