sábado, 27 de agosto de 2011

Lembranças da Serra Gaúcha

Eu tive a sorte de trabalhar no Guia 4 Rodas, e a competência de permanecer lá por 10 anos, e uma das viagens que fiz está marcada até hoje na minha memória. Foi na região da Serra e Vinho Gaúchos, onde encontrei muitos descendentes, como eu, de imigrantes italianos, além de oriundos da Alemanha. Devo ter engordado uns cinco quilos (estou sendo condescendente...) neste "trabalho".
Aterrizar em Porto Alegre, por mais que os colegas tenham me antecipado, é uma beleza só. Como gaúcha é bonita, Dio mio, quanta ragazza, barbaridade tchê. Carro alugado, mas que sotaque agradável, e vou eu rumo ao destino embriagante e pantagruélico. Apesar de ir para uma região onde o frio é o atrativo, era verão quando lá estive.
Não pretendo citar lugares, mas passagens, e minha primeira refeição foi uma colonial: pães, queijos, embutidos e outras iguarias, com um ótimo vinho nacional que até então eu desconhecia. Após madrugar para pegar o vôo, toda a agitação para chegar à primeira cidade, uma refeição destas é para premiar, já que tudo é feito pela família, não havia nada industrial. Fui dormir satisfeito...
Fui bem cuidadoso no farto café da manhã, já que iria visitar cantinas e, degustar vinhos. Em umas dessas visitas, eu estava sozinho e uma bela guria de olhos turqueza, loira e com a cor de camarão por ter tomado muito sol no fim de semana, atendeu-me com um sorriso prá lá de tri legal. Ela inverteu os papéis, me fuzilou de olhares e perguntas, queria saber como era São Paulo, como era meu trabalho, como eu era... Ela falava comigo entre uma uva e outra, de uma bandeja com vários cachos de niágara, e colocava maliciosamente as uvas entre os lábios antes de sorvê-las. Até que centralizou aquele olhar de horizonte mar e céu e me perguntou: Tu queres um bago guri?
Café Colonial, vá a pé de Porto Alegre até a Serra antes de encarar um, assim não haverá remorso e você vai poder experimentar tudo, embutidos, queijos, tortinhas salgadas e doces, patês e geléias, pães, bolos, frutas, doces e, claro, café com leite ou chá. Imagine uma mesa dessas para um viajante solitário e que não foge à labuta do trabalho diário e estafante... Santo Dio
No meio deste tempo atemporal, sabia que era um domingo e estava na área rural, transitando por entre parreiras e estradas de terra, parecia a Toscana, até que vi uma idosa, toda vestida para missa, caminhando sozinha em meio à poeira. Parei o carro e ofereci carona - apesar de vestir preto, tinha o rosto enrugado bem maquiado - no que ela me perguntou, com sotaque: Di qui famiglia oste é? Eu respondi, Izipettô, e a senhora entrou no carro e foi comigo até uma igreja, uns três quilômetros adiante, sem proferir uma palavra sequer, apenas um obrigado quando saiu. O sino tocava quando chegamos, acho que ela já estava atrasada e Felinni gostaria desta cena...
Restaurante de Galetos: Capeletti in Brodo, radicci com toucinho, polenta frita ou de forno recheada com muzzarela, galeto assado, maionese, massas e sobremesas. Para comer sem pressa e sem culpa, basta escalar o Itaimbezinho e tudo volta ao normal. Felicitá...
Não sei se ainda existe, mas quando estive por lá a Adega Medieval, em Viamão, era uma referência de vinho artesanal. Fui atendido pelo próprio Oscar Gugliomoni (desculpem se não acertei a grafia), que não só me mostrou seus tonéis, como dividimos um branco antes do almoço, e um tinto durante, que foi arroz, feijão, abóbora e cochas de frango. Um apaixonado por vinhos e responsável por este autor também gostar de taças e rótulos. Anos mais tarde soube que morreu assassinado, um desperdício...
Eu lotei duas caixas de isopor, grandes, com garrafas que fui comprando aqui e ali, por não encontrá-las em São Paulo. Na volta quis o destino que eu pegasse um vôo que vinha de Buenos Aires, além de poder passar no Free Shopping, tive que me explicar na Receita Federal o que iria fazer com tantas garrafas. Quando a auditora, que não tinha os mesmos dotes das gaúchas, viu que eram vinhos brasileiros, mandou eu passar, não sem lançar a pergunta: o que você vai fazer com tanto vinho? Degustá-los...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Aromas de conversa

Hoje saí da toca para entregar os pães, todos que fiz na penúltima fornada estão agora cumprindo seu destino, o que é ótimo e me permitiu relevar o trânsito de São Paulo no roteiro São Bernardo do Campo, Jardim da Saúde, Belém, Cerqueira César e Pirituba, radiador esquentando, luz de óleo acendendo, gasolina no raspo do tacho e o rodízio limitando meu tempo e tornando a aventura mais emocionante: cruzei a marginal  Tietê exatamente às 17 horas em direção à última entrega e uma grande surpresa.
Satye Yada, terapeuta holística - cujo blog está na lista ao lado - eu conhecia apenas de vista, quando ambos trabalhamos na Movie&Art Produções Cinematográficas (merchand gratuíto porque gostei de trabalhar lá, sou grato) e depois no Facebook. Ela pediu o pão pelas fotos que postei ontem, não conhecia meu lado alquímico nem eu fazia idéia da terapia dela. O trabalho convencional limita a nossa vida, nos faz perder momentos preciosos, como uma conversa sem os receios de estar dando munição a um adversário, que é o que acontece no mundo competitivo de hoje.
Eu levei o pão e ganhei uma padaria de conhecimento. Fui brindado sobre aromaterapia (e não vou contar detalhes porque isto é uma ciência, precisa estudar muito para poder falar e quem quiser eu indico a Satye e você agenda uma consulta). E conversa vai, conversa vem, e dá uma cheiradinha aqui, uma explicação, uma interpretação e fui convidado para jantar...
Ofereci ajuda no que Satye transmutou-se em bushi, pude até vê-la vestida  de o-yoroi e respondendo que se eu tentasse ajudá-la, na cozinha dela, ela faria uso da katana samurai e sssffficth (é, bem no lugar que você deve ter imaginado). Contentei-me em lavar a louça e quanto a isso não corri nenhum risco de mutilação...
De uma frigideira alta, cubos de frango, maçã, repolho rasgado, um cheiro de alecrim e óleo de gergelim no final, acompanhados de molho, criação dela, a base de missô, shoyo, sakê, açucar, alho e gengibre, que é uma delícia e que vou tentar reproduzir aqui em meus pratos. Frango a Yada, acompanhado de gohan.
Isto tudo aconteceu porque não achei longe, nem reclamei de atravessar a grande São Paulo para entregar pão. A gente atrai o que pensa e ouvi muita sabedoria nesta tarde/noite de quarta-feira. Prometi fazer um spaghetti al vôngole para ela e o filho (mas irei previamente paramentado com uma armadura, nunca se sabe quando o bushi vai baixar de novo...). Esquecemos de fotografar o prato, fica para a próxima

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Paternidade

Era um sábado qualquer, dia de sol e meu saudoso pai disse que iríamos assistir ao jogo Palmeiras e Saad, no Parque Antárctica, para nós na longínqua Água Branca, duas conduções e tudo o mais. A primeira vez a gente não esquece e, naquele tempo jogo ao vivo pela TV era raríssimo, estava mais acostumado a ouví-los pelo rádio, com Fiori Gigliotti e, com muito mais emoção, Osmar Santos. Naquele tempo meu time disputava, e ganhava campeonatos...
Meu coraçãozinho de pré-adolescente bateu forte quando escutei, ainda na bilheteria, o grito da torcida que canta e vibra. Meu pai, com a sabedoria expontânea de caboclo do interior, profetizou que o time adversário já devia estar na frente do placar, e não deu outra, quando conseguimos um lugar na arquibancada, na curva posterior à das piscinas, já estava 0 x 1, que no decorrer no primeiro tempo viraria 0 x 2. Mas os times trocaram de campo, e assisti o empate do Palmeiras naquele lugar mesmo, e meu time seria campeão paulista daquele ano. Assistir ao jogo do seu time com seu pai não tem preço, independente do resultado... e esta é uma das melhores lembranças que tenho do meu pai.
Tenho dois filhos únicos, pela diferença de tempo que eles vieram ao mundo, e posso garantir que o nascimento deles foram momentos ímpares na minha vida. Não tem como explicar ver aquele ser, ainda com cara de joelho inchado, aparecer para o mundo. É a nossa maneira de parir, e única também, já que a natureza nos reservou o papel de coadjuvantes - e com a modernização da medicina, cada vez mais secundários - no processo de gestação. O homem que não presencia isto é um ser incompleto.
Quis o destino que eu encontrasse uma enteada, que apesar do relacionamento ter se transformado em amizade, continuamos com uma ligação de pai e filha. Não a vi nascer para o mundo, mas tenho a grata satisfação de acompanhá-la no despertar para vida, já trilhando seus projetos e escrevendo suas poesias. Eu sou uma pessoa de muita sorte.
Hoje ser pai é bem mais complicado (para quem ainda não leu, minha crônica Dia de Homem tenta explicar alguma coisa). Não basta contribuir com a genética, você vai ter que aprender, e suportar, trocar fraldas, tirar temperatura e passar as primeiras noites em claro, sob o risco de ser despejado da função. Aquela figura que sai de manhã para trabalhar e volta à noite, fingindo ouvir o que a mãe descabelada e cheia de olheiras tenta te contar, não cola mais. Tome sua linha ou o próximo filho sairá de um banco de espermas...
E este novo comportamento não tira os antigos, como satisfazer as vontades da gestante, por mais absurdas que sejam, no meio de uma noite fria e chuvosa, em tomar sorvete de cupuaçu ou ir procurar ostras frescas no litoral. Ter um rebento com a cara de sorvete ou de molusco não é um risco que valha a pena correr. E tem que ser carinhoso, porque a futura mãe chora para qualquer espirro que você dê enviesado. Não temos as dores do parto, mas que elas aproveitam, isto aproveitam sim.
Devo registrar que repeti o ritual do futebol com meu filho mais velho, numa época brava para o Alviverde, mas aí espero que ele mesmo conte sua experiência. Com o filho mais novo visitei o museu do futebol, e nos divertimos muito naquela tarde ensolarada no Pacaembu. Com a filha existe um problema de incompatibilidade de torcida (rsrsrs). Mas os três têm algo em comum em relação a minha pessoa: devoram os pratos que, porventura, eu preparo para eles, e não tem emoção maior, para um pai, do que esta.

Edman
12/08/2011
Parabéns a todos os pais, heróis ou não.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Hastes flexíveis MacGyver

No atual nível de consumo, que o Brasil descobriu recentemente de uma maneira mais democrática, os pequenos consertos ficaram para plano X, para xô coisa quebrada que eu quero uma nova. Passou a garantia de eletroeletrônicos, pifou vai para o lixo (aliás, tem lugar certo para descartar estas coisas, não na calçada dos vizinhos ou no reciclável, procure no link: http://www.prac.com.br/ ), e a natureza que se vire, e ela está se virando com a gente no meio desta gastrite toda. Mas isto é assunto para outra história...
Estava há três anos sem usar o alarme do meu carro porque a peça que o aciona, que fica junto às chaves, estava com problemas. Acendia e nada do pi, ou pi pi pi. Fui num centro automotivo especializado em alarmes - pelo menos é este o peixe que ele vende, ou vendia - e ouvi a seguinte explicação: "esta peça não tem conserto, você vai ter que trocar todo o alarme..."
Não satisfeito e nem burro, fui num chaveiro que realiza este tipo de coisa, e ouvi a mesma ladainha, aí acreditei porque ele apenas conserta, não vende alarmes. Coloquei a Bíblia dos Espíritas dentro do carro, uma fita vermelha no retrovisor central, e nenhum ladrão encantou-se pelo meu automóvel, que não é lá mais tudo isso, tem mais de dez anos, mas é meu.
Não sei porque cargas d'água um dia destes qualquer achei a cópia da chave, que pensei ter perdido, como se encontra essas coisas que você cansa de procurar e não aparece, ela literalmente caiu no meu colo de um lugar que havia revirado várias vezes - que elas existem, há se existem. Eu já o havia aposentado - eu o usei primeiro quando comprei o auto (espaço para merchand) - porque também estava com defeito. Resolvi abrir, achei que estava sujo, peguei uma haste flexível (olha o merchand que poderia haver aqui), molhei suavemente no álcool, e limpei. Pilha nova e meu alarme, que teria que ser todo trocado, voltou a funcionar.
Neste final de semana, tinha alugado dois dvd's e só consegui parar para vê-los domingo à noite. Tinha esquecido que para eu acionar o dvd na minha tv, um tal de imput, preciso do controle remoto, que está quebrado. Como todas as coisas que eu compro, meus aparelhos são muito difíceis de achar peça. As do meu carro vem todas da longínqua Argentina, que eu só soube depois que comprei, e que está sempre em falta para justificar um preço acima da tabela. Minha tv também, apesar de dois controles originais, eles perderam o controle do tempo e deixaram de on/off. Um deles funcionou até outro dia, com um pedaço de papel dobrado entre as pilhas, forçando a barra e minha paciência quando deixava de funcionar. Até que houve um último suspiro e resolvi levar a um técnico, após um dia de análises ele decretou o óbito, sem direito a respiração circuito/circuito. Fui procurar um novo. Não existe, tem de todas as marcas, menos da minha. Até que achei uma que poderia servir, claro que o dobro do valor das outras.
Funcionou dois meses. Fui procurar alguma explicação e vi, made in China. Fui enganado duas vezes, na origem e no valor, que deve ter custado bem menos do que paguei. Onde está a nota, acho que entrou no mesmo buraco que estava a chave, sumiu. Mas deixa pra lá que ainda resolvo esta pendenga...
Então sem controle, sem dvd. Abri o véinho, que tinha funcionado até outro dia, parecia o mapa do Egito, com suas pirâmides cercadas de areia. Limpei, apelei para as hastes flexíveis com álcool, coloquei as pilhas (espaço para merchand) e, funcionou, sem os papéis no meio delas. Santo Álcool dos circuitos ressuscitados...

Edman
09/08/2011

domingo, 31 de julho de 2011

Catadores


Ao ler o título da crônica você pode ter fantasiado em algum malhado e sarado, que circula pela noite à cata de mulheres disponíveis (ou vice versa, né), mas para sua (in)felicidade não é disso que vou comentar. Os catadores são pessoas invisíveis da nossa sociedade.
Onde moro tenho a visão dos recipientes de lixo reciclável, a foto foi tirada do meu portão, na maior discrição possível e não sabia que minha Kodak (olha o merchand gratuíto) tinha todo este recurso. Tenho a visão, mas não é perto o suficiente. E sou jornalista pô, me esgueiro pelas frestas da notícia (que coisa mais patética...)
A distância não é suficiente para abafar o som, escuto tudo o que dizem, principalmente à noite, como uma concha acústica. São famílias inteiras garipando ( não fotografei por ter crianças, e é por isto que continuo free lancer, tenho lá meus ideais de comportamento, não usaria isto).
A reciclagem aqui em São Bernardo do Campo funciona, do ponto de vista da coleta. Não dos cidadãos, mas isto é outro assunto. A pessoa da foto juntou três sacos do que "colheu" e carregou nas costas não sei para onde. Está caro morar em favela, a especulação já chegou lá e, com o quê comandar a comunidade, tem que pagar um valor acima do que ganham. Quem garimpa lixo não mora, passa a noite.
Nas caminhadas que faço em dia que passa o lixeiro, o convencional que deveria ser apenas orgânico, é um comboio de fuscas, chevettes, marajós e fiat 147 (e eu não recebo nem um centavo por citar as marcas, não é justo) disputando a mercadoria. Eles abrem com maestria os sacos (ainda teimam em usar plásticos), olham e tornam a fechar, não espalham sujeira na calçada do morador, é bom ressaltar isto, e pescam o que interessam. Os "carros", que já chegam arqueados pela idade, uso e maus tratos, "refugam", engasgam e sofregamente carregam a carga extra.
Já presenciei mais de 10 (dez) pessoas, durante a madrugada, revirando os recipientes do lixo reciclável, e acho que era uma família inteira, pois havia divisão de tarefas. Fui observador até que resolvi ser gente, estou vendo aquelas pessoas, ignorar ou reclamar não muda a situação delas.
Cumprimentei o homem da marajó (depois da pororoca) e ele assustou-se, demonstrou medo, além de estar muito irritado com o "automóvel". Ele vem com a mulher e a filha. A blusa de lã da filha, com o emblema de escola municipal, caiu do carro. Peguei e levei, andando pois o carro se arrasta mesmo, e a mãe não conseguiu me olhar nos olhos, disse obrigado olhando para o chão. A criança não, ficou me olhando com olhos de peralta, agradecendo na liguagem das crianças que ainda não mataram a inocência e a gratidão, que eu a tinha salvado de algum pito. Estranho foi ver a expressão de espanto de uma catador, quando pedi licença a ele para colocar uns plásticos no "container" que ele garimpava. Percebi que não está acostumado com isto.
A família de dez pessoas vem no chevette, vem é maneira de dizer, uns quatro vem dentro, os outros empurrando. Não sei como este carro, sedan, conseguiu continuar existindo. Parece um origami de durepox (mais uns troquinhos que eu poderia receber) e sua lataria uma exposição de sinos de ventos. A curiosidade ainda não venceu a timidez de sair de casa e ir conversar com aquelas pessoas, mas primeiro preciso conquistar o casal com a filha, que vem de dia (mostra a cara, mesmo que rabugenta) e é cuidadosa na coleta.
Mas sabe quem bagunça o local do lixo reciclável? Não são os catadores, que até diminuem o que é jogado lá, mas os condutores e passageiros de carros de luxo, provavelmente do condomínio de luxo que existe em frente. Descarregam o resultado do seu consumo, sem dia certo, mesmo com a lixeira entupida, e de maneira errada. Não estou julgando dialeticamente a sociedade, eu vejo isto acontecer, e se ainda não intervi, é porque preciso escrever antes disso. Prefiro conquistar os catadores primeiro.

Edman
31/07/2011

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Oração

A refeição deixou de ser uma mera alimentação - para alguns, reconheço - e passou a ter rituais similares aos cultos ou sociedades secretas. Eu, descendente de italianos, a vejo como uma forma de oração, é um momento de se reunir, confraternizar, resolver todos os problemas do mundo e, mangiare...
Aqui vai um banquete, que já fiz para minha família quando ainda eles desconfiavam que eu poderia fazer alguma coisa no fogão. Foi a primeira refeição completa que preparei, e não esqueço até hoje pois sempre pedem para repeti-la. E refeição é igual a jazz, não existe uma igual a outra, depende dos ingredientes, do clima e da energia de quem prepara. Aqui vai um ossobuco e um risoto à moda de milão...
Na véspera, prepare o caldo para o risoto: duas fatias de ossobuco, um peito de frango (se for galinha caipira, melhor ainda) com osso, cebolas descascadas inteiras, alhos descascacados e inteiros, duas batatas e cenouras idem, um pouco de talos de aipo (dois são suficientes ou eles vão dominar o caldo)e o bouquet garni: (ramos de tomilho, folhas de salsa e louro, grãos de pimenta do reino, amarrados em mousselina). Numa panela grossa e grande, ferva a água e coloque os ingredientes, mais sal e deixe cozinhar em fogo baixo, por um longo tempo. Dá tempo de ler Os Sertões ou Grande Sertão Veredas (rsrsrs), mas é para esquecer, apenas acompanhe e deixe água quente ao lado para ir completando. Desfrute dos temperos exalando seus perfumes aos poucos, sem pressa, que a vida é bela e tudo que é bom, demora a acontecer...
Você vai saber quando estiver pronto, experimente, acerte o sal, coe (e aproveite os legumes e as carnes para matar a fome porque vai lhe dar água na boca), espere esfriar e coloque na geladeira. No dia seguinte o excesso de gordura estará concentrado em cima, retire com cuidado com uma escumadeira e vamos aos finalmente.
Peça ao açougueiro para cortar o ossobuco com 5 cm de espessura, não compre congelado, não tem sabor algum. Que você não saiba o que é ossobuco, vá lá, mas se teu açogueiro não souber, troque de açogueiro...Faça uma mistura de farinha de trigo com pimenta do reino moída e sal, e outra de ovo batido. Passe a carne no ovo e depois na farinha. Reserve (sempre gostei desta expressão nas receitas, não diz muito mas é simpática)
Numa panela de fundo grosso, se for de ferro, perfeita, ajeite rodelas de cebola, lâminas de alho, tomate picado (a gosto tirar sementes e pele, eu não tiro), folhas de aipo e sal. Antes de colocar os ossobucos já enfarinhados, dê uma seladas neles, numa frigideira com pouco azeite, dos dois lados, para não deixar que o tutano desprenda-se e que os sucos da carne permaneçam... hum. Faça camadas intercaladas de temperos e carne, tampe e cozinhe, aproveitando o azeite da selação e um pouco de vinho tinto com um pouco de caldo, muito pouco. Demora para ficar pronto, quem tem pressa que vá no fast food ...
Acho que depois de umas três horas, com você vigiando e completando o líquido, pode começar a preparar o risoto. Aqueça o caldo sem ferver. Pique cebolas e coloque a manteiga para derreter. Refogue as cebolas na manteiga com um pouquinho de azeite, pois a manteiga não tem muita tolerância com altas temperaturas. Quando a cebola estiver transparente, coloque o arroz arbóreo, sem lavar, e refogue mexendo bem. Coloque um vinho branco, a qualidade dele depende da importância que você dá para a vida, até que todo o arroz fique coberto, e deixe levantar fervura. Quando isto acontecer, complete com o caldo já aquecido, jamais coloque caldo frio no arroz em cozimento, ele não está fazendo sauna. Coloque e vá mexendo, sempre completando com caldo quente e remexendo, e acompanhe o ossobuco (é meu caro(a), a vida é dura...). O risoto tem que ficar pronto e ser servido, caso contrário é divórcio ou você é deserdado...Acrescente parmesão ralado (ralado, não de saquinho, e se for pecorino romano, você ganha a gata e a família)
Separe uma caneca com caldo bem quente e dissolva o açafrão (tá pensando que é pouca coisa, é açafrão, não cúrcuma) e coloque quando o risoto já estiver próximo do al dente. Não sei explicar como isto acontece, experimente caracas...
Cutuque o ossobuco, ele tem que ficar macio e quase desprender do osso. Se você conseguir terminar os dois pratos ao mesmo tempo passou no teste...
Uma salada verde amarga, como rúcula, acompanha bem este prato, desde que seja sem vinagre. De aperitivo, você pode servir pão italiano com paté de fígado, que o Manacá da Serra Emphoriun terá orgulho de lhe oferecer. Corte no sentido do comprimento, cenouras, talos de aipo, pepinos e nabos, coloque numa taça grande com gelo e sirva como petisco. O cheiro da comida vai dar fome, vai abrir o apetite até dos mais concentrados faquires, portanto é melhor ir enrolando...
Um xerez gelado, de aperitivo, também vai amainar os estômagos mais afoitos e liberar as línguas mais inoportunas, se você tiver uma câmera, filme, pode ganhar alguma coisa em Canes... O vinho que completa este prato pode ser um Concha Y Toro, Marques da Casa Concha, chileno, cabernet sauvignon, com no mínimo 6 anos de descanso e maturação, várias garrafas... Não esqueça de colocar colheres de café na mesa, elas vão servir para comer o tutano que fica no centro dos ossobucos. E após todos os pratos limpos, uma grappa como digestivo, e café, muito café para levantar da mesa sem vexames. O melhor fundo musical para esta refeição é a trilha sonora do Poderoso Chefão.
A sobremesa que fiz neste dia foi uma torta de damasco, ficou ótima e só fiz uma vez ou já estaria beirando os 120 kg. Com creme de leite azedo vai muito bem.
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Edman
25/07/2011
Eu faço este banquete na tua casa, basta combinar e vai sair mais barato que ir ao um restaurante. O Manacá da Serra Emphoriun patrocinou esta crônica.
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sábado, 16 de julho de 2011

Dia de homem

Levanto correndo para preparar o café, as torradas mornas sem queimar e o suco de frutas sem açucar, entre o frio e o gelado. Ela não pode perder tempo, após o banho matinal toma o café entre jornais e, com a boca com gosto de hortelã, me deseja um bom dia. Poucas palavras nesta hora é uma sábia decisão.
Fico com os afazeres domésticos, mas antes tenho a academia para manter a forma e o pique, afinal, está trabalhoso ser macho nos dias de hoje. Volto para casa e, na mesma roupa do malho, arrumo a cama sem restos de amor, tiro o pó dos móveis e do meu orgulho, arrumo os livros da estante e das minhas leituras, com o rádio ligado, notícias e música, trânsito e fofocas de celebridades: eta vida besta meu Deus...
Ela avisou que vem almoçar em casa, determinou o cardápio e horário, afinal, ela é quem manda e paga as contas, "eu sou apenas, seu homem"... Arroz com seleta de legumes, mas não de latinha que tem muito sódio; lentilha com pedaços de toucinho magro - acho toucinho magro uma incoerência gastronômica - , berinjela assada com azeite e parmesão light, rúcula, tomate cereja e cenoura crus, e um filé de tilápia apenas "beijado no azeite quente".
Ela chega no horário, ela é irritantemente pontual, as vezes mais que o relógio, faz a pergunta mais crítica que um homem nos dias de hoje pode ouvir: como foi seu dia? Mas como não vou ter tempo de responder mesmo, ela descreve toda a sua manhã movimentada, a discussão com uma colega, as tiradas de sarro porque o time de fulano perdeu (essa fala não era minha?) e até o que vai fazer à tarde. Com um beijo de manjar, despede-se e avisa que não a espere para o jantar.
Estou ocupadíssimo mesmo pela tarde, horário para a depilação no peito, para o pedicuro, pés masculinos sempre serão masculinos, haja lima para deixá-los na forma, e para uma hidratação nos cabelos. A escova progressiva já me tentou, mas meu senso de ridículo, e algum resto de machismo, falou mais alto e impediu este atentado aos meus cachos naturais. Também preciso corrigir os fios brancos do cavanhaque...
A tv aberta ainda não acordou para a realidade, não existem programas vespertinos para os homens modernos, ou são para as mulheres ou futebol. Bordados, receitas e como ganhar dinheiro, mas não há dicas de pequenos consertos e aquelas coisas que homem faz quando está em casa. Precisamos criar um movimento para isso, queremos ser ouvidos, homens, héteros, maridos domésticos...
Marco meus exames de rotina, próstata, colo, ergométrico, colesterol, testosterona. Há muito do que dar conta sem, literalmente, deixar a peteca cair. Como disse há pouco, dá trabalho esta nova condição. O capitalismo resolveu empregar mulheres, e elas resolveram fazer de tudo. Ou você é milionário, ou dono do próprio negócio, funcionário público ou marido domesticado...
Eu sei que o dia do homem já passou, é que a crônica ficou esperando o autor e, como as coisas mudaram, o autor chegou atrasado. Espero que ela não fique brava, o sofá não é muito onfortável para dormir...

Edman
16/07/2011
Penso seriamente em criar uma parada para esse fim...
Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança terá sido uma mera coincidência