quinta-feira, 14 de abril de 2005

A culpa é da Marta!

Após cem dias, sem novidades. Tudo de ruim que acontece na cidade de São Paulo é culpa da Marta. O genérico prefeito Serra não consegue dizer um parágrafo que não tenha uma citação da ex-prefeita. Até no balanço dos cem dias só houve citação, martírios para todo lado, talvez porque não tivesse o que dizer, talvez não soubesse como explicar que não fez.
Porque não focalizar esforços em resolver as coisas. A eleição para prefeito acabou, você venceu, ou melhor, a Marta perdeu. Acredito que você tenha inteligência suficiente para entender que sua vitória foi mais uma derrota de Marta. Ela foi aprovada como prefeita, nunca esqueça disso. Você ainda não o foi e está demorando muito para começar a fazê-lo.
Bastaram cem dias e São Paulo está voltando a ter a cara feia. Com obras ou não, a cidade estava sendo bem cuidada. Arborizada. Mas o que esperar de quem chama palmeira de coqueiro. O exemplo é aquele pedaço da 9 de julho, arrebentado pelas chuvas de verão, terminado na sua gestão e largado, com o canteiro todo arrebentado, mas afinal para que tanto mato, não é? Melhor são os gramados estéreis, basta passar o cortador – mas precisa passar viu Serra, o mato cresce – e está resolvido. Corredores como da Faria Lima e Helio Pelegrino, nunca mais...
Enquanto estiver preocupado com as eleições, e é só isso que justifica tamanho bombardeio com a antecessora, afinal ela foi aprovada como prefeita, São Paulo vai seguir nesse mutirão: a cada dia um secretário ou subprefeito vai se revezar nos ataques, a mídia vai dar espaço para as “idéias” do prefeito – destruir os calçadões do centro, ampliar o rodízio, inventar mais dois museus, cobrar pedágio nas marginais – e nada, nada de administrar esta cidade. Afinal, no ano que vem tem eleição para governador e as poucas obras na cidade são do governo estadual.
Realmente, a Marta é a culpada por você estar na prefeitura hoje. Só ela.


Edman Izipetto
14/04/2005


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

Carta aberta aos eleitores contribuintes

NOBRE DEPUTADO, EU NÃO QUERO PAGAR PELO SEU AUMENTO, SE NÃO ESTIVER CONTENTE COM O SEU GANHO ATUAL, DEMITA-SE!           
 Foi com temor que recebi a notícia da vitória do folclórico deputado Severino Cavalcanti a presidente da Câmara dos Deputados. Por que?
            A única lembrança do ilustre parlamentar é a de que, em todo final de ano, naquela semana entre o Natal e o Reveillon, ele aparece reclamando dos parcos vencimentos dos pobres e combalidos deputados federais.
Pouco importa que o “expediente” da Câmara seja a partir do meio dia da terça-feira até ao meio dia da quinta-feira. Pouco importa que há dois recessos por ano, em julho e de meados de dezembro até o carnaval. Pouco importa que nas festas juninas a bancada nordestina, da qual Severino faz parte, simplesmente não se atreva a aparecer em Brasília.
E muito pouco se importam, desgastados parlamentares, se em ano eleitoral somem de Brasília e, se precisar votar algo importante, ou seja, se precisar justificar os subsídios e auxílios que mensalmente caem em suas contas, independente da presença ou não no seu local de trabalho, eles ainda cobrem extras.
Agora no discurso de posse do caro Severino, a primeira preocupação é simplesmente aumentar os ganhos dos colegas que o elegeram em mais R$10.000,00 por mês. Isto multiplicado por 513, número de deputados na câmara, significa um aumento de gastos no total de R$5.130.000,00 ao ano.
Mas a irresponsabilidade não vai parar por aí, pois o efeito bola de neve vai rolar até os municípios. Por lei, os Deputados Estaduais podem ganhar até 75% dos vencimentos dos colegas federais, e os vereadores, até 75% dos deputados estaduais. A maioria ignora que o “até” significa limite, não piso. Irão citar a lei para justificar que seus subsídios estão defasados e toda aquela lábia que os políticos têm para defender seus próprios interesses.
Quem vai pagar a conta? Nós, portanto é melhor cortar o mal pela raiz. Entre em contato com o seu deputado federal, se não lembrar, não importa, entre em contato com quantos deputados você puder e impeça mais este assalto ao nosso bolso, acesse http://www2.camara.gov.br/ e diga sua opinião sobre esse reajuste. Repasse aos seus amigos.

17 de fevereiro de 2005

Edman Izipetto
jornalista

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

SAUDADE

       Para falarmos sobre algo tão profundo e, ao mesmo tempo, tão corriqueiro como SAUDADE, podemos responder com uma pergunta (a mesma que de vez em quando fazemos ou escutamos das pessoas que nos telefonam): o que você acha?
      SAUDADE a gente sente. Sentir é sentir sem necessidade de explicações, nem de dizer onde dói, porque ela dói e dói no coração, na alma e às vezes até no físico, em todo o corpo. Ela é sentida, não explicada. É como o vento que vem e vai, ou como o ar que respiramos e permanece conosco até partirmos.
      SAUDADE da infância sem preocupações com o amanhã, da adolescência inconseqüente, da meia idade, dos nossos familiares ou amigos que se vão para lugares distantes ou que se foram para sempre.
      SAUDADE é saudade. O que você pensa sobre isso?

Edman Izipetto
26/11/2004

sexta-feira, 29 de outubro de 2004

Que falta faz... será?

Há no ar uma certa bruxaria. Tanto as escolas de inglês fizeram que o dia das bruxas entrou no calendário nacional, ou melhor, na planilha comercial das lojinhas que vendem estas traquinagens contra o nosso folclore.
A semana ajudou muito: eclipse total da lua, mal súbito em jogador de futebol em pleno jogo, chuva com trovoadas pela manhã e céu limpo ao entardecer, frio de 13° à noite e calor de 26º no meio da tarde e até um deputado incorporou um espírito em plena sessão do legislativo sincrético baiano. Mistérios e um clima de vassoura a varrer os santinhos das campanhas políticas do segundo turno.
Voltando às lojinhas. Antes era um porto seguro para aquela lembrancinha maneira, quando se estava sem muito capital e a necessidade te impelia para presentear alguém. Em que pese a dificuldade em tolerar aquela mistura de incenso, vela e sabonete, sempre sobrava um cristal que servia aos propósitos de impressionar e o mais importante, os lugares estavam sempre vazios.
Com a moda os preços viraram uma grande mandinga. Do alfinete que fura os “olhos do mau olhado”, passando pelo pêndulo que não te deixa caminhar em círculos até às vassouras “Adventure” com seguro e IPVA pagos, tudo virou grife, vip e parcelado em três vezes no cartão.
Até as pedras, Drumond, precisam ser garimpadas, pois qualquer vidrinho transparente ou colorido tem cotação de diamante.

Edman Izipetto
29/10/2004


sexta-feira, 28 de maio de 2004

Até que enfim é sexta-feira!

Quantos já repetiram, repetem ou irão repetir esta frase, mesmo que em pensamento. Será que é um sinal de que as coisas, durante a semana, não foram bem ou que o que está por vir é melhor? Mas o fato é que o clima das sextas é diferente, mais alegre, cheio de esperanças e planos, expectativas e promessas, ares de grandes programas.
O sábado começa mais cedo para alguns, esquecendo o cansaço, o chefe, o estudo, ou seja lá o que for de compromisso sério, para esticar a noite de sexta num boteco, com os colegas do trabalho e lá, pelas tantas canecas, resolver tudo que a semana não deixou que se resolvesse. No dia seguinte é muita água de coco para espantar a ressaca e um exercício tremendo de memória, pois você pode ter falado demais.
Para outros o simples fato de não acordar com o despertador já é um grande negócio. Dormir até mais tarde nestes dias frios não deixa de ser um programa, mas sempre fica a sensação, depois de finalmente levantar o esqueleto da cama, que o fim de semana já começou mais curto. O sábado já era e a preguiça, resultado de dormir sem ter sono, arrasta o resto do dia numa vontade de voltar para cama. Das coisas que você planejou fazer dê por satisfeito se conseguir fazer um terço.
- Mas no domingo eu acordo mais cedo e termino, repetimos a nós mesmos, como que buscando uma compensação, tentando se redimir da culpa de ter esticado o dia livre preso a sonhos interrompidos e ao virar de um lado a outro do colchão.
No domingo sempre tem um almoço na casa de alguém e este alguém sempre insiste em ligar a TV junto com a comida, combinação explosiva se o menu for brachola e o programa televisivo aquelas coisas de contar que gente famosa é legal, é humana e lutou muuuuito para chegar lá (no programa de domingo à tarde). Não tem antiácido que dê jeito.
Outra combinação angustiante é aquele prato que você odeia com a transmissão do time que você detesta, mas que todos na casa, com exceção do cachorro, torcem. Ainda lhe servem um vinho de garrafão com a garantia da dona da casa de que é “fraquinho e docinho”. Você jura de pés juntos que nunca mais vai fazer isto...
Ainda resta uma esperança. Domingo à noite. Ou você tem um filme locado, ou vai ao cinema, ou vai ao shopping, mas não fique em casa em frente à TV que é suicídio mental. Você só tem como alternativa filmes violentos ou a violenta discussão dos programas esportivos.Você vai acabar torcendo para que a segunda-feira chegue logo ou pior, vai pintar aquele sentimento de perda de tempo, que você não fez nada no seu tempo livre, que amanhã nada vai mudar e existe uma grande chance de perder a hora.
Ainda bem que é segunda-feira! Mas o fato é que o clima das segundas é diferente, mais responsável, cheio de promessas, projetos e expectativas, ares de que a próxima sexta-feira está longe e que é um bom dia para começar uma dieta.

Edman
28/05/2004

quinta-feira, 22 de abril de 2004

Trabalho voluntário e responsabilidade solidária

Todos que estão lendo estas palavras não estão aqui por acaso. Decidiram estar. Cada um com a sua história, sua vida e a simples decisão de dedicar parte de seu tempo a ouvir a história dos outros. A vida moderna nos tirou esta capacidade, de parar e ouvir o que outra pessoa tem a dizer. Nossas falas sempre são mais importantes, isto não é defeito ou qualidade, é natureza, instinto de sobrevivência.
Quando atendemos alguém somos, naquele momento, a pessoa mais importante para o interlocutor. Temos a capacidade de encarnar o pai ausente, acalmar a mãe dominadora, pacificar o irmão genioso, compreender o filho rebelde, revelar o amigo desconhecido, reaproximar o cônjuge genioso. Somos seu confidente, seu cúmplice, seu amigo. Somos todos ouvidos.
Este exercício, o de poder falar o que está sentindo sem censura, sem conselhos ou frases feitas, permite à pessoa ir se descobrindo, ir liberando suas angústias e amarguras e a partir desta verdadeira faxina, traçar seus próprios caminhos e comportamentos. Este é o espírito do nosso trabalho.
Mas também somos humanos, com todos os limites que esta condição nos impõe. Precisamos dividir para não esgotarmos nossa própria capacidade de ajudar. Nossas vidas cotidianas devem continuar seguindo seu curso, nosso aprendizado da vida, nossas relações de amizade, de família e nossos compromissos profissionais e sociais não podem, e não devem, ser interrompido, pois aqui não é, para nós, compensação, mas uma decisão de qualidade de vida. Nossa melhor maneira de divulgar o trabalho é o de também melhorarmos com os nossos entes queridos.
Como membros de um grupo, há pessoas diferentes e as habilidades e individualidades também o são. Nossa reunião é para colocar isto. Conhecendo-nos, poderemos respeitar os limites de cada um e potencializar o melhor que cada um pode dar de si para este importante trabalho. Dividir para somar, pois no mundo há mais pessoas precisando de um ouvido amigo do que dispostas a ouvir. Nós optamos pela minoria, mas ela é forte quando é unida.

Edman Izipetto
22/04/2004

quarta-feira, 31 de março de 2004

Quarentena

         Todas as guerras são estúpidas. Todas as revoluções que levam às guerras são irresponsáveis.
         Há quarenta anos alguns covardes, aproveitando-se do uniforme, das armas, do financiamento externo e da hipocrisia da classe média, decidiram que era hora da travessia no deserto. Decidiram pela quaresma da liberdade de manifestação, pelo jejum do conhecimento, pela disciplina de regras talhadas em pedra-sabão. Eram falsos profetas, no entanto. Não pretendiam transformar tribos desunidas em uma nação, mas enriquecer seu próprio clã.
         Em nome de uma pátria vingadora, qualquer atitude que, no julgamento deles, representasse o exercício humano do pensamento, era digno de repressão, punição e sumiço. Uma geração inteira foi ceifada apenas por discordar. Primeiro a violência física, a mais rápida nos resultados, mas a que deixa mais registros, a que incita resistências e, portanto a mais lembrada. Quantas cabeças brilhantes, quantos gênios, não teriam tornado este país melhor se não fossem simplesmente eliminadas ou destituídas de sua condição humana? Hoje os sobreviventes contam suas histórias, alguns até viram presidentes e usam a idade média tupiniquim como parte de um currículo brilhante. Não aprenderam nada. Mas a maioria não sobreviveu ao cárcere, às torturas ou ao desaparecimento de alguém querido. A estes nada irá devolver o atraso de vida.
         Mas o que de mais sério estes senhores dos quartéis fizeram com o país, atingindo a origem da própria formação da civilização, foi atrasar o conhecimento. Informação, cultura e experiência são ingredientes importantes isoladamente. Quando eles se harmonizam em conhecimento são poderosos. Este era o clima de 1964, esta era a geração de 64. O país estava amadurecendo como nação a partir das carteiras escolares, que é a maneira mais pacífica de revolucionar. Ideologicamente ou não, era um momento para o grande salto. Quebrar as oligarquias - o ranço de colonialismo que teima em fazer o país não caminhar - seria uma conseqüência natural apenas pela sucessão de eleições, pela democratização do conhecimento. Os doutores da tristeza represaram isto por 21 anos.
         Estamos pagando muito caro pela maioridade da idade média tupiniquim. E em dólares.

                                                                                                                 Edman Izipetto
                                                                                                                 31/03/2004