terça-feira, 24 de maio de 2011

A garota das caçambas

Ela tem no fogo de viver o dom da fusão em transformar arames farpados - cercas limítrofes da existência dos mortais - em seres animados, que enfeitam aos olhares mais soturnos e libera, quais crianças no toque da escola, a imaginação mais adulta e tacanha.

Pedaços de madeira, lançados de volta à selva de concreto, são por ela recuperados como animais abandonados, limpos, tosquiados, tratados com o carinho de temas festivos, sensuais, instigativos: numa homenagem à árvore abatida, reescrevendo sua função de embelezar, sombrear e devolver o puro ar da arte.

Às telhas que outrora protegeram outros tetos, agora renegadas a entulho, os pincéis da menina Cuca devolvem a imponência de coroa, sugerindo tantas jóias quanto as cabeças que a cobrem e admiram possam visualizar.

Objetos largados pela idade, ou lascados pelo uso, tem por ela um banho de luzes e são customizados pelas suas mãos sem preconceitos, renascendo como objetos de desejo.

A artista feliz vai colorindo suas pegadas e borrifando gotas de vida a quem tem o privilégio de encontrá-la no caminho.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Viva as diferenças

O mundo em branco e preto tem um aspecto "noir", mas o que seria da vida se as cores primárias não se misturassem...
Ontem foi o Dia Internacional contra a Homofobia, compartilho todo o aspecto de luta, esclarecimento, alerta. O que é complicado, e até triste entender, é que em pleno século 21 ainda temos que marcar uma data para ser contra alguma coisa (por mais errada que seja), e não a favor de outra coisa, embora tenhamos na história o exemplo de Gandhi. Para o preconceito, para a violência, para a covardia, os rigores da lei e, se elas assim não o são, que lutemos por elas, como estão fazendo as cerca de cinco mil pessoas da Marcha Nacional contra Homofobia (que bem poderia ser Marcha Nacional a favor dos Homossexuais), hoje na Esplanada dos Ministérios.

Um ótimo prato é o resultado da combinação de diferentes ingredientes, de origens diversas do reino mineral, vegetal e animal, química entre doce e salgado, equilíbrio entre ácido e básico, entre textura e maciez, contraste de cores e aromas. Quem não tolera as diferenças deve comer muito mal, ou sempre igual, ou na total ignorância. Ignorância anoréxica pois aqui no Brasil as minorias são outras hoje. De acordo com o IBGE os negros são a maioria da população e, com certeza, no próximo censo, os homossexuais irão aparecer em pé de igualdade, em termos numéricos, com os héteros, não porque não o sejam agora, mas simplesmente muitos mais irão assumir sem o medo destes preconceitos tacanhos que a natureza humana há de extirpar.

Não gosto destes grupelhos radicais, com ideais cavernosos - um paradoxo chamar isso de ideal - que covardemente atacam indivíduos em menor número, seja a pretexto do que for. O que eles querem mesmo é "media", não identificá-los por grupos que se dizem representar, mas por indivíduos perturbados ou quadrilha, já frusta o momento fúnebre de celebridade que buscam. E que arquem, com a idiotice ou tragédia que causarem, longe da convivência humana. Qualquer violência tem que ser punida, prevenida, mas combatê-la é apagar fogo com inflamável.

Eu seria muito incoerente se alimentasse qualquer preconceito. Apesar do sobrenome "oriundi" de pai e mãe, meu parentesco mais próximo é o avô materno que apenas nasceu na Itália e veio para o Brasil com 4 meses. Minha avó materna era filha de uma mulata, com todos os traços e cores que resultam desta temperada mistura que encantou o pai da minha mãe. Lamento ter herdado apenas o cabelo crespo, gostaria de um pouco mais de melanina nesta pele, para não parecer um crustáceo quando ouso tomar sol. Mas o mais importante é que descobri, há algum tempo, que tenho uma deficiência genética no sangue cuja origem é Itálica e Mediterrânea. Apesar do nome nobre e gastronômico, ela não me faz mal, apenas me torna incapaz de doar hemoglobina. O que isto significa? Que a parte boa do meu sangue tem origem africana. E viva o colorido da vida...

edman izipetto
18/05/2011


"O mundo não é totalmente governado pela lógica: a própria vida envolve certa espécie de violência, e a nós nos compete escolher o caminho da violência menor.” Gandhi

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Diálogos


-         Alô! Posso falar com fulano?
-         Desculpe-me, ele não está na sala...
-         Deixe um recado, por favor?
-         Estou sem papel e caneta para anotar...
-         De memória você não lembra?
-         Lembrar do quê?
-         Do recado!
-         Qual recado?
-         O que eu vou deixar
-         Como vou lembrar se você ainda não falou...
-         Mas você vai lembrar de dizer?
-         Não sei, posso lembrar do recado e esquecer do que dizer ou esquecer do recado, mas dizer que não lembrei...
-         Você atende todo assim desse jeito?
-         Não sei, não lembro...
-         Posso falar com seu superior?
-         Aqui ninguém é “superiô” a ninguém, todo mundo é “bróderr”
-         E seu chefe, posso falar com ele?
-         Só com hora marcada, ele é bem meticuloso...
-         Tem alguém aí com competência o suficiente para anotar um recado?
-         A secretária do patrão, mas ela não está na sala...
-         Quem está aí? Ninguém trabalha neste lugar?
-         Eu estou...
-         E o que você faz?
-         Anoto recados...
-         Então imagino como é esta empresa
-         Você não faz nem idéia
-         Como faço para deixar recado para o fulano?
-         Ligue lá pelas 10 horas da manhã que ele mesmo vai lhe atender, depois da meia noite, estranhamente, não costuma ficar ninguém por aqui...
-         Mas é que até amanhã eu vou esquecer o que eu tinha para falar...


Edman
19/12/08

Não deixe para amanhã o que você pode adiar hoje... principalmente se não for importante...
Feliz Natal e um ótimo 2009

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Seca sem lei

            O céu paulistano é um cozido de sexta-feira: restos da semana em suspensão num ambiente propício a fervilhar. Não chove há quarenta dias e o vento há muito que não assobia por estes lados, preferindo passar com seu hálito antártico sobre o mar. Parece que ambos, chuva e vento, saíram de férias em julho para o Caribe. Uma camada de pó e fuligem adentra a todos os buracos, anatômicos ou atônitos, deixando o horizonte cada vez mais distante e a respiração cada vez mais hesitante.
            A inversão térmica – noites frias com dias quentes – solidifica uma aura cinza-alaranjada entre a terra e a camada de ar respirável, que entope todos os poros, desde os mais cuidados até os mais abandonados, grafitando toda superfície que ouse deslocar-se nesta bruma de civilização. Os aviões rasgam o ar, literalmente, para pousar e decolar por estas bandas. Má sorte aos urubus, impedidos de utilizarem o apurado olfato pela profusão de cheiros “apetitosos” e sem teto para planar, reviram os sacos de lixo competindo com cães, gatos e mendigos. A expressão “chamar urubu de meu louro” já é realidade entre os moradores de rua.
            A água evapora rapidamente e deixa em estado de concentração os detritos que navegam pelo Tietê e Pinheiros, fermentando os cheiros de toda região metropolitana, pois tudo o que é feito nas privadas, na calada – ou não – e fétida intimidade sanitária, termina por se revelar, anônima, em um desses rios caudalosos e moribundos. O ar é sólido e os odores sórdidos... Indiferentes à solidez do que se respira, pessoas continuam a fumar e a alimentar esta esponja de detritos, mas os sinais de fumaça permanecem um longo tempo ao redor de quem as produz, como um destaque de caneta marca-texto, sem ter para onde ir até se integrar totalmente ao “habitat secosistema”.
            A maioria das árvores ainda está nua neste inverno do fim dos tempos, por aqui e ali se encontram ipês rosa, terminando sua floração, e os amarelos, segurando seu parto normal à espera de uma cesariana de chuva. Patas-de-vaca resistem aos pontapés do aquecimento global e os bicos-de-papagaio, sem alarde, colocam tons fortes a este impressionismo de espigões espetados em algodão sujo. São Paulo, vista de longe, é uma grande maquete envolta em gelo seco e iluminada de reflexos de cobre.
            Os índices de umidade relativa do ar quebram recordes negativos e nada se faz. Não se restringem automóveis, pedestres, animais. A imprensa divulga receitas, manuais e alertas, mas a vida – ou o que se entende por ela – continua repetindo seus vícios para contribuir na piora da qualidade de sobrevida. Uma cidade situada entre a Serra do Mar e da Mantiqueira não pode ter esta secura toda. A terra da garoa virou terra das partículas em suspensão.
Edman Izipetto
05/08/2008

Obs.: a presença de enxofre no diesel, na Europa e EUA, é de 10 para um milhão. Na região metropolitana de São Paulo é de 200 e no restante do país 2.000. Uma lei aprovada há seis anos obriga montadoras e Petrobrás, a partir de 2009, a baixarem este enxofre para 50 e até agora, faltando menos de 4 meses para entrar em vigor, nada foi feito. Está provado que este enxofre é letal (ou por que na sede das montadoras desenvolveram tecnologia para não precisar ter tanto enxofre?): cada vez que você passa nos congestionamentos com veículos à diesel ao seu lado você está respirando este enxofre e abreviando tua vida (informações ouvidas na rádio CBN, programa do Heródoto Barbeiro).

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Como se fosse a primeira vez

            Mais uma data para alegria, e muito amor, das operadoras de cartão. O que fazer neste dia massificado, “merchandising”, bateria de corações pulsando nas telinhas, telonas, folder, jingles e... Afinal, apenas para materializar o sentimento por meio de um presente. Mas um amor não se conquista todo dia? Com estratégia, com carinho, com paixão, com persistência. Mas vá esquecer de algo neste dia e, pronto, já era...
            Presentear, paparicar, agradar e esquecer rusgas, deixar a força vital fluir e olhar apaixonadamente como se fosse a primeira vez. Está aí algo bem simples para nossa complexidade de complexos contaminar e comprometer a delicadeza de um simples e sincero carinho.
            Está certo, aos afortunados, se chegar com uma Ferrari de presente, creio que até o cartão seja dispensável – em alguns casos tua própria companhia – o presente em si, pelo valor e pelo ícone, diz tudo. O manjado buquê de flores, estas cada vez mais transgênicas e virtuais, dependendo de como você o dará e acompanhado de algo que sua paixão queira ou goste, marcará o dia. Mas não vá com lembrancinha que o risco de não ter o que comemorar será grande...
            O compromisso social neste dia é intenso: cesta de café da manhã, talvez um almoço informal em horário esticado, correio eletrônico ou torpedos, por toda a tarde, com todas as breguices românticas e ridículas que só apaixonados se permitem fazer, jantar à luz de velas, um vinho que agrade ao par, comidas exóticas e afrodisíacas, som de fundo, bem de fundo, que desperte a serpente kundalini para queimar todas as calorias, iguarias e fantasias.
            Véspera de Santo Antônio, dia de muitas mandingas e simpatias para quem está sozinho – como se isso fosse um castigo – e de visitar uma quermesse para combinar pinhão com quentão. A Lua estará crescendo no céu, a temperatura estará convidativa para o abraço, o amasso, o contato. Os perigosos balões irão riscar o noturno teto de pegadas de arandelas, apontando para onde os ventos sopram e deixando muitas sombras para os beijos furtivos.
            Todas as receitas foram dadas pela mídia, do patê de foiagras ao tagliatelle com toques picantes e ervas aromáticas, da carne macerada em aceto balsâmico ao fundo de alcachofras com trufas, do mascarpone com geléia de amora aos damascos salpicados de cacau e noz moscada, você foi intoxicado pela quantidade de menus que lhe caíram ao colo, no fígado e no bolso, que até perdeu o apetite e, num ato de sabedoria, desistiu do restaurante, das filas, das discussões dos outros casais, da perda de tempo com rituais banais e marcados para o mesmo momento.
            Encontre seu par antes de tudo, chegue meio tímido, mas decidido. Faça-lhe um carinho no rosto como se estivesse afastando os cabelos da face. Olhe bem profundamente nos seus olhos até que a tua imagem esteja tatuada na retina dele. Não importa há quanto tempo o conheça, pergunte se quer te namorar porque você o ama e que a vida não teria graça, não haveria o que comemorar, se não pudesse compartilhar este olhar. E lhe beije, como se fosse a primeira vez, sempre. Tudo o mais será acessório apenas, tudo o mais...Desde que não esqueça de lembrar...

Edman Izipetto, ótimo dia para namorar...
12/06/08

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Você faz parte

            Datas são marcos, umas pessoas dão importância, outras ignoram, muitas esquecem e a grande maioria comemora sem saber o porquê. Mas dia do Meio Ambiente é sério, muito mais que calendário, afinal onde é que vivemos?
            Você já parou para pensar o que faz com a água? Nós a represamos na nascente, a batizamos com cloro e outros ingredientes e a devolvemos completamente suja, de gorduras, detergentes, urina e coco. A água, que antes percorria limpa o rio, agora é agregada de “humanidade”, engrossada de dejetos e falta de oxigênio. Nós temos que viver, não vivemos sem a água, mas fazemos de tudo para que ela se esgote no esgoto da imprudência. Já li isso alguma vez, não é meu, mas é apropriado: ninguém deixa a torneira da mais fina Champagne aberta enquanto entorna a taça, faça isso com a água que você usa.
            E nossos lixos, como é difícil reciclar. Há tantos contratempos que às vezes é melhor jogar tudo junto mesmo. O papel assim pode o assado não, o plástico de fundo tal serve o outro não, latinhas amassadas, plásticos lavados e sem rótulo, retira as tampas de metal. Qual é? Assim que ninguém vai reciclar mesmo... Por que o alumínio deu certo? Porque é simples, pisa e pronto, separa e tem sempre alguém recolhendo. Que tenha especialistas ou mão de obra para separar o papel, os plásticos, os vidros, e que ganhem com isso. Até hoje não sei se aqueles sacos de salgadinhos, metalizados e engordurados, podem ser colocados em plásticos, metal ou orgânico (e todo dia tem um na entrada da minha casa, largado por um futuro obeso ou hipertenso).
            E sua área verde, você cuida dela? Você deixou algum lugar para a terra respirar onde mora? Você já plantou uma árvore hoje?
            Mais do que distribuir mudinhas, e isso é didático e importante também, precisamos preservar as já existentes. Uma árvore viva na grande São Paulo é uma guerreira, uma linhagem especial da espécie, e merece ser reverenciada. Alguém resolveu plantar árvores frutíferas há 30 anos e os pássaros voltaram. Quem sabe a garoa também volte se plantarmos agora a flora nativa da Mata Atlântica que cobria os morros por aqui. Quem sabe não trazemos de volta a cor azul cobalto do horizonte em substituição ao laranja mercúrio de hoje. Quem sabe nossos rostos fiquem menos sujos de pó preto. Quem sabe não tenhamos um ambiente inteiro para viver se cada metro quadrado disponível tiver uma planta respirando.
            O que você fez hoje pela sua Terra?

Edman Izipetto
05/06/08

terça-feira, 29 de abril de 2008

Tarde de Domingo

No céu paulistano a cor azul foi possível graças às “monções” de outono, varrendo o cinza e a poeira para outras dimensões. Um domingo atípico, onde o futebol, longe, é de apenas um time, a virada cultural levou de roldão outro tanto de interesse e muito, mas muito mesmo, das lentes curiosas estavam na RCC (reconstituição da cena do crime). No mais, béloo, o dia tava lindo...
Domingo este entre dois feriados, a turma se segura para desforrar-se com mais vagar. E o sol a pino, tinge de manchas verde-limão as mesinhas nas calçadas, entre cervejas e petiscos, os palmeirenses se preparam para uma decisão que não acontece há mais de 10 anos. Jogo no interior, resta os telões ou as tvs dos botecos para assistir com um arremedo de torcida. De aperitivo tem fórmula 1, Massa em segundo na tela, mas em primeiro nas mesas da torcida de descendentes de italianos, afinal a Ferrari é terra nostra...
E a overdose cultural, varando a noite como manda a  boemia, auxiliada pela estiagem e a bela noite de lua minguando, manteve as cabeças pensantes ocupadas e ocupou as cabeças vazias, ou bolsos parcos, com shows, exposições, demonstrações e pitadas de campanha eleitoral sem custos diretos, mas que já foram antecipadamente pagos pelos nossos IPTUs, IPVAs, IRs, ICMSs, e muitos “is” afiados na pedra de amolar quem produz. Ótimo seria que todos pudessem pagar pela arte e escolher o que querem ver, sem essa pantagruélica maneira de enfiar goela abaixo o que foi escolhido por terceiros...
Leio no dia seguinte “que poucos curiosos estiveram acompanhando os trabalhos da polícia... talvez pela ausência do casal...” Alimentemos a máquina devoradora de assuntos, ibope (pesquisa aponta que 98% de alguma coisa acompanham o caso). Alguém já vendeu os direitos autorais? Em que pese a tragédia, é uma bela história (mas beleza e tragédia têm parceria genética). É um caso que está tão óbvio que pode não ser verdade, pelo menos será nisso que os advogados de defesa irão se pautar: tudo não passa de indícios e provas testemunhais...
Nas colinas do Pacaembu a claridade é filtrada pelos vitrais da Faap, gerações de artistas traçam suas assinaturas pelo antigo e pelo novo, entre a tapeçaria marroquina e a arte interativa quântica, entre as jóias das morenas do norte da África e as areias tingidas do Tibet, entre os escritos minúsculos do Alcorão e a poesia que se projeta na parede e vira fumaça, pela beleza exótica e pra lá de Marrakesh e a tecnologia reinventada do caleidoscópio. A arte nasce nos bancos escolares e cresce, fermenta e alimenta como pão saindo das fornadas sob diversas formas e receitas.
Para quem soube aproveitar este domingo, com o que a natureza proporcionou, percebeu um azul pouco visto por aqui, ou um canto de pássaro pouco notado, ou até mesmo a brisa fresca em meio ao calor de verão da tarde. Agradeceu quando a temperatura baixou, tão longo o horizonte tornou-se laranja salpicando-se de pontinhos brilhantes e tingindo de cobre as nuvens que, por entender a cidade, passaram com a pressa da eminente segunda-feira.


Edman Izipetto
29/04/08