sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Epitáfio

 Acordei numa manhã de sexta-feira, quente mesmo no inverno, seca como um couro de criação colado nos ossos, e uma sensação estranha na mão esquerda: ela mexia mas não pegava. 

Achei que tivesse dormido em cima, já fiz a proeza uma vez, não dei bola e toquei o dia no desequilíbrio da direita. 

Acordo sábado pior. Ligo o sinal de alerta, falo com a mulher pelo telefone, não moramos juntos, e lá vou a pé para a UPA, pois não dava para dirigir, com meus tênis brancos de sessão espírita, pois o de caminhar tinha feito bolhas dias antes . Eu só no terror de algo pior.

A primeira pergunta da moça da triagem: o senhor tem histórico de AVC? Não, mas tenho uma intuição de que se eu partir naturalmente dessa para a outra, será dessa maneira. 

Ela pediu para erguer a perna esquerda,  sorrir!?!, piscar os olhos... catso vai pedir para eu bater palmas como um leão marinho também. Tirou a pressão,  histórico de doenças, alergia e aguardar. 

Unidade cheia de gente e de mosquitos. Esses parecendo os aviões kamikazes da segunda guerra, com rasantes. Venha para a unidade de saúde e leve a chance de pegar dengue. 

Enquanto eu aguardava, veio a idéia de preparar meu epitáfio, já que vou morrer mesmo, pelo menos crio um ritual particular e uma atração à parte para não ter um velório vazio.

Sem símbolos religiosos, flores só em vasos, nada de coroas que não passam de plantas mortas querendo roubar meu protagonismo. E, principalmente, uma garrafa de Espírito de Minas para comemorar minha passagem. E um conjunto de chorinho viria bem a calhar.

Quero ir vestido com a camisa do Palestra Itália e um velho calção de banho, já que para onde vou é quente. Também meu chapéu comprado numa esticadinha até Embu das artes. 

Pensando em Deus, vou ter uma conversinha olho no olho. Agora que a libido voltou veio me chamar, qualé Véio, este tipo de acordo, até onde sei é do outro. 

Serei cremado sob o  som de Caxangá, nas vozes divinas de Elis e Milton Nascimento. E se der tempo, Vida de Viajante com os dois Gonzagas. 

Minhas cinzas serão jogadas nas nascentes do Rio Tietê, em Salesópolis, pois de pirraça quero que o Caronte atravesse todo o estado numa última viagem.

Enquanto isso, um cego inquieto transita frenético, com sua bengala elétrica emitindo sons de uma AR15, para desespero de sua acompanhante. A minha frente a filha, nervosa e sem paciência, discute com a mãe, serena e a razão de estarem lá.

De repente, olho na parte oculta do meu braço esquerdo e vejo uma vermelhidão. (música de suspense toca na minha cabeça junto ao barulho que os computadores antigos faziam ao se conectar com a internet discada).

Tinha esbarrado nas folhas anteontem, sem estar de manga comprida, pois estava um calor arretado, tentando fazer uma ligação hidráulica para funcionar a lava louça, mas isto é assunto para outra história. 

Avisei a mulher e a irmã, para tirar a preocupação, pois eu estava com alergia e ia facilitar para o médico. Dito e feito, não sem um drama 

O médico estava no fundo do consultório, mal olhou em mim, e eu contando tudo o que agora escrevi e ele escrevendo no computador. É alergia, diagnosticou e, entre os remédios receitou Dipirona. 

Eu perguntei para o Dr.

- o Sr quer terminar o que o inseto começou?

- o quê?

- Sou alérgico a Dipirona 

- como assim 

- ela abaixa minha pressão 

- ela abaixa a pressão de todo mundo, mas vou trocar 

Rasgou a impressão como se fosse a última e perguntou se eu queria tomar medicação ali. Lógico que sim é injeção, quem não gosta de uma picadinha num sábado à tarde. 

Após mais uma espera saí de lá, mancando por conta da bolha no pé esquerdo, o joelho resolveu pinçar, também esquerdo, a mão querendo paralisar com um dedo em riste e a bunda, que eu não tenho, dolorida por duas injeções. 

Baseado em fatos reais vividos pelo autor

Ressuscitei o blog

Essa foi a saideira

Edman 

21/09/2024

domingo, 1 de agosto de 2021

Rebeca da breca

 A menina de Guarulhos, não fiz pesquisa, atravessou o mundo redondo, muito redondo, para fazer piruetas. Desconheço a nomenclatura da ginástica, mas ela pula obstáculos, quantos estiverem no caminho. Este é o espírito do brasileiro que nasce negro, preto, mulato, pobre e periférico.

Desvia de balas, jamais perdidas, mas direcionadas ao preconceito. O esporte, e a cultura, é o triplo carpado para fugir da marginalidade. A escola é quase que uma exceção, uma redenção, desde que não incomode os doutores patrocinados para continuar a dominação das castas.

Quem mais poderia harmonizar Bach com funk? Movimentos dignos do filme Matrix, uma realidade virtual antes dela existir. Uma Macunaína do século XX competindo entre tantas loiras, também meninas com seus dramas, mas sem a agilidade de usar o Flic-Flac para escapar da morte, talvez não a física, mas do determinismo.

Rebeca é muleca, mas com uma serenidade que assusta, não ao que tenta trazudir o sentimento de quem escreve esta emoção de pódio compartilhado,  mas dos mais de 260 milhões de brasileiros, desconhecendo que o país pouco fez para que chegasse ao ouro e prata, e muito menos dos que perceberam que nossa Bandeira foi resgatada.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Procon-SP suspende evento tradicional




O 31 Encontro de Defesa do Consumidor , que aconteceria nos dias 10 e 11 de setembro, na AASP (Associação dos Advogados de São Paulo) foi repentinamente suspenso pela  Diretoria Executiva do Procon às 17 horas do dia 08 de setembro, sob alegação de contenção de despesas.
Em comunicado intranet, postado às 17 horas do dia 08 último, assinado pela diretora  executiva Ivete Maria Ribeiro, citando o decreto 61.466 de  02 de  setembro (cujo conteúdo diz  respeito tão só a contratação ou não  de novos servidores, concursados ou não), “Esta Diretoria Executiva, por determinação do Excelentíssimo Senhor Secretario de Justiça, SUSPENDE o 31 encontro de Defesa do Consumidor.”
Para a AFPROCON (Associação dos Funcionários do Procon) causou  estranheza o cancelamento em cima da hora, haja vista que o programa de contenção de gastos do Governo Alckimin foi decretado em fevereiro  e, se fosse o caso, o desgaste - e os custos - com os 540 inscritos, mais as despesas de transporte, hospedagem, suporte para o evento, material gráfico e o cancelamento dos convites com os palestrantes não teria acontecido.
NCFS, há 9 anos no Procon de Ilha Solteira, foi um dos inscritos que não souberam do cancelamento a tempo, e  viu sua viagem de 14 horas ate São Paulo tornar–se inócua. Como há  representantes de outros estados, é possível que outros interessados em discutir os rumos dos direitos do consumidor percam também a viagem.
Como havia uma manifestação da AFPROCON, programada para o dia 10, com pauta de dissídio coletivo, reposição salarial, viabilização das carreiras, jornada de 6 horas nos postos de atendimento público, licença maternidade de 180 dias, resgate técnico da Fundação, sob a contrariedade da Diretora, fica a suspeita da verdadeira razão da suspensão de um evento que antecede à própria origem do Procon.

Maiores informações:

Manuel Amaral da Silva
Presidente da AFPROCON

 edman izipetto
jornalista mtb 13677
izipetto.edman@gmail.com

sábado, 9 de agosto de 2014

É father

Não sentimos as dores de um ser empurrando nosso ventre, pois estamos ocupados na angústia de perceber a mulher perdendo suas formas e tornando-se mais suscetível aos nossos atos de pouco tato.
Participamos do parto como meros espectadores, até filmamos toda aquela divina violencia que é uma vida transpondo para cá a sua viagem neste louco mundo.
Precisamos de milhões de espermatozóides, elas apenas de um óvulo. Não entendemos as vontades, os desejos, os caprichos, mas deve ser o preço da perpetuação da espécie.
Mas a maneira como entendemos o mundo muda quando vemos aquele ser, ainda inchado, nos braços da enfermeira, ou amamentando, pois o mais próximo disto que chegaremos é comprar leite no mercado.
Pai é o coadjuvante candidato a Oscar, e nem sempre ganha...

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A copa e a área de serviço

Foi o futebol que colocou o Brasil no atlas. Até então éramos uma imensa floresta tropical cuja capital era Buenos Aires. Corria-se o risco de levar uma flechada pelas trilhas da Av. Paulista e, a garota de Ipanema era o sonho idílico de Peri, numa toada sem tambores e atabaques, mas no canto de guerra da Bossa Nossa, o samba civilizado pelo jazz.
Foram-se os tempos românticos do esporte, que roubou as gingas da capoeira e a determinação de liberdade de um povo, forjado nas altas temperaturas da exploração e derrama, tirando o pouco que tem sem devolver o mínimo à sobrevivência digna. O futebol sempre foi uma destas válvulas, deixando escapar a pressão de maneira controlada, cozinhando a existência numa sopa de indiferenças.
A copa não é a razão de todos os nossos problemas, nem vai resolvê-los quando ocorrer a batalha final dos gladiadores modernos na Arena Maracanã, porque a morte psicológica de uma derrota é tão sangrenta quanto as que ocorriam no império romano. Nada mais apropriado hoje chamar de arenas os estádios, já que era assim que se mantinham no poder os que dele apenas se beneficiavam... Não me refiro ao poder das siglas, mas daquele escamoteado pelos corredores, pelos porões da corrupção, que rouba desde as quentinhas dos presídios, às merendas, às salas de educação e saúde, às moradias, que sangra a nossa riqueza há 500 anos. Sempre os mesmos anônimos.
O futebol nos colocou no mapa, e é ele quem vai nos desnudar. Que nem tudo aqui é festa, carnaval, beleza natural e um povo pacífico, alheio, de terceiro mundo. Tudo estará em tempo real, mesmo que as transmissões oficiais relatem, e é isto que irão fazer, o que chamam de espetáculo, sempre haverá uma imagem pelos milhões de celulares, ávidos por registrar e divulgar seus chips de realidade.
Fizemos uns "puxadinhos" (Doze templos cuja única razão é distrair), amontoamos nossas tralhas num quarto vazio, deixamos nossa sala para os visitantes, e vamos assistir a Copa de nossas áreas de serviço - entupidas de coisas por fazer - onde nem sempre as ondas de transmissão sintonizam, onde o rádio chia, as televisões chuviscam, mas tudo se esquece, como num porre, ao gritar Gol.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Histórias de Dona Dgmar

Minha bisavó, Antônia (não lembro os outros nomes, mas tinha Quadros no meio, é dele mesmo, todo mundo tem o lado negro na família) é a pessoa mais marcante da infância de minha mãe. "Ela é a mãe de minha avó, Rita Duarte, tão submissa, mas que nunca assinou o sobrenome do meu avô, Santucci. Esta é outra história...."
Tinha na minha mãe a neta favorita, a companheira de tarefas. Como a de colher e escolher as mangas espada, tão raras hoje, no número de cem, para o comerciante português (já perceberam que sempre é um português), cuja cobrança era apenas um disfarce para não dizer que era doação. Minha mãe não lembra dos valores, mas guarda em suas lembranças as cores, o perfume e o prazer de estar embaixo de um pé de manga. Dá gosto vê-la devorar uma, com fibra e tudo, hoje em dia.
O quintal destas fantasias era em Salto, SP, próximo ao Rio Jundiaí, onde ele se junta ao Tietê para formar o que dá nome à cidade, Saltos de Itu (em indígena é rio, são cachoeiras), que sempre aparecem no noticiário negativo da TV na formação de espuma. O lugar é lindo, basta a Grande São Paulo parar de blá blá blá e cuidar do esgoto e do sabão biodegradável.
Mas neste quintal tinha um universo. O universo da minha mãe. Galinhas poedeiras e raposas pegas em armadilhas, todas as frutas possíveis, todas as verduras, e principalmente, todas as ervas. Minha bisavó era católica fervorosa, mas benzia, despachava e encaminhava. Era uma pessoa incrível, pela descrição de minha mãe. Quando precisava, ia no terreiro "encaminhar os caminhos". Uma frase que minha mãe disse neste reveillon me inspirou a escrever esta crônica.
Um irmão que morreu por falta de conhecimento e saúde pública, não sei a época e isto é irrelevante (porque continua igual), mas que minha mãe tinha verdadeira paixão, foi vaticinado pela minha bisavó: "Esta criança é muita linda, não vai durar muito no meio de tanta gente feia como vocês". Eu queria a máquina do tempo só para conhecer esta mulher... Ele morreu criança, vítima de pneumonia, por falta de atendimento adequado.
E ela fazia sabão de cinzas, ótimo para combater as sarnas dos animais de estimação. Estamos falando da década de 30, 40. Ela doava os sabões quando era para este fim. Não tinham nada, viviam a vida simples, mas doava sabão de cinza para curar um animal que nem conhecia. É ou não para conhecer uma figura assim...
E meu bisavô, Joaquim Duarte, mais conhecido como Nhô Quim (adorei), era carpinteiro, e odiava que o chamassem de marceneiro. Eu até agora não entendo a diferença, espero que alguém me ajude. Foi quem ensinou as horas para minha mãe. E fazia caixinhas de madeira onde minha bisavó guardava goiabadas, marmeladas e outros doces, sem conservantes, sem geladeira, que duravam tempos, das frutas colhidas e apuradas no tacho de cobre, sobre o fogo à lenha. Este era o segredo, segundo Dona Antônia.
Apaixonante é ver o brilho nos olhos de minha mãe quando conta estas histórias, principalmente sobre meu pai, na visita mensal depois de ir trabalhar na Capital e voltar de trem, sempre com um presentinho, namorando na sala/copa, extrapolando o horário definido pelo chato do meu avô, sem lenço e sem documento, apenas amando minha mãe. Eu tenho pedigree...

Edman
02/01/2014

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Ritual de passagem

Já passei o Reveillon na praia, na montanha, na casa dos amigos, de parentes, na minha, com a família, sem a família, mas acho que é a primeira vez que vou celebrar este ritual comigo mesmo, não vou passar sozinho, mas decidi algumas coisas, não promessas de mesa de boteco, que não pretendo, vou fazer. Uma delas é escrever que é a parte que me deixa mais feliz...
Brasil e Argentina na final da Copa aqui, onde o pessoal da cozinha vai ter que assistir de telões e tv, porque elitizaram o esporte mais popular do país. Neymar x Messi, um jogo para entrar para história, independente de quem ganhe (desde que seja o Brasil, claro), será A DECISÃO.
E a única sexta-feira 13 do ano será em junho, um dia após Brasil x Croacia. Queria ver EUA e Inglaterra jogando neste dia, eles adoram o 13... Sem dúvida o futebol vai dominar o país, o noticiário e os prós e contras até o meio do ano. Depois virá a ressaca, com vitória ou não, uma bela de uma ressaca.
Além do carnaval, que Sampa segue tentando fazer igual aos cariocas, vai ter um belo feriadão com Sexta da Paixão e 21 de abril na segunda seguinte. Às pessoas curtas de idéias e nascidas para carimbar papéis, mesmo que eles não existam mais, o País não para nos feriados, apenas os negócios mudam de foco, porque é o turismo quem fatura com isto, é o comércio, é a grana que circula e movimenta esta imbecilidade chamada de capitalismo.Mas o segundo semestre vai ser duro, nadinha, e ainda com propaganda eleitoral...
Novas amizades, amores, reencontros e despedidas, saudades que reaparecem, lembranças que vão repousar no fundo do lado do esquecimento. A vida é assim, e o grande barato dela é manter-se sereno, tanto nas euforias quanto nas depressões, ouvi isto de um conhecido, parece que é alguma sabedoria oriental, contada de maneira matemática. Eles devem mesmo ser sábios, o ano sempre começa lá primeiro, a esta hora que escrevo isto, eles já estão de ressaca, e o meu Pernil ao Mediterrâneo mal começou a liberar seus aromas inconfundíveis.

Que 2014 seja 100% melhor que 2013
Edman
31/12/2013

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Trégua geral, afinal é Natal

Talvez alguns passem ao largo de tudo isto, por alguma crença, por tristeza, momento, solidão ou até por falta de motivo mesmo. Mas sempre dão uma espiadinha. A generosidade anda solta por estes dias, como querendo compensar todo o ano de egocentrismo. Há um sorriso discreto, mesmo nesta busca desenfreada de consumo e glutonice, que deixa o ambiente mais leve, mais colorido, mais piscante.
E as desavenças, que até então pareciam inconciliáveis, resolvem-se num abraço, na troca de presentes, nos brindes de copos de requeijão às taças bohemias. Na farofa enriquecida de fofocas e picantes comentários, nas aves que não fugiram da degola e no salpicão, que aquele seu parente que só aparece uma vez por ano, faz questão e honra de deter tão secreta receita.
Após meio século de Natais, ufa, a melhor lembrança que guardo deles é descobrindo Sampa, pela primeira vez e antes do apelido, indo de ônibus do longínquo Jardim Maria Estela até a rodoviária, meus pais, irmãos e malas enormes onde cabiam toda a nossa alegria de passear, vislumbrado com todas aquelas luzes, a gritaria, a voz do megafone anunciando as partidas, sempre atrasadas pontualmente.
Certeza que haveria um sanduíche de pão de forma, com uma fatia de apresuntado e outra de queijo prato, uma fartura para nossas vidas periféricas, e ainda tínhamos direito a um gibi, para ler durante as deliciosas e intermináveis horas de viagem até Salto, onde nossos avós e o resto da família nos aguardavam com panetones caseiros e um festival de guloseimas que só casa de avó é capaz de ter e inventar. "Bença" vó. Não lembro de ceias, sempre dormíamos cedo, mas tinha alguém vestido de Papai Noel que entregava presentes, antes das novelas, transitando pelas ruas de paralelepípedos numa kombi enfeitada e transvestida de trenó. E tinha a mesa dos adultos, e a mesa das crianças, onde nos afogávamos de tubaína sob a vigilância severa dos pais, com medo que toda aquela água viesse a sair durante o sono nos colchões sinfônicos de palha seca.
Tudo simples, tudo inesquecível.
O espírito de Natal, na verdade, é a criança adormecida que trazemos dentro de nós e vê, nesta época, o portão semi-aberto e escapa, vai solta traquinar e brincar de ser humano, sem diferenças, sem preconceitos, na inocência de que pode haver um mundo mais justo, do tamanho do quintal dos avós, onde as fantasias sobem nas mangueiras e cajueiros, as galinhas botam ovos de verdade e as cercas, de bambus cortados ao meio, permitem que se espione os brinquedos vizinhos.
"Há um menino, há um muleque,
Morando sempre no meu coração,
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão"

Feliz Natal a todos
Música tema, Bola de Meia, Bola de Gude
Edman
25/12/2013

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Sob a garoa paulistana



Antes da civilidade, São Paulo era uma bacia hidrográfica protegida a leste pela Serra do Mar, e suas quaresmeiras, e a oeste pela Mantiqueira e os resquícios de araucárias. A peculiaridade de nascentes bem próximas ao litoral correndo para o interior ajudou na sua conquista. As corredeiras do Tamanduateí eram a via expressa de quem subia do litoral até o porto de Piratininga, parada obrigatória antes da viagem para os sertões. Muitas fogueiras foram acesas onde hoje o majestoso Mercadão distribui seus quitutes.
Das elevações secundárias, o maciço da Paulista dividia as chuvas entre o vale do Pinheiros e o do Anhangabaú. O sinuoso Pinheiros inundava toda várzea de seu nervoso trajeto formando um alagadiço em meio à Mata Atlântica, criadouro natural de peixes e o “ceagesp” dos animais de caça. O Anhangabaú, por sua vez, escorregava transparente entre pedras, escavando e separando o centro velho do centro novo, dois platôs repletos de ipês, jacarandás e manacás históricos.
Todos os rios, riachos, córregos e olhos d’água declinam para o Tietê. Os Bandeirantes usaram este rio para aumentar as fronteiras do então novo “continente”, na fúria cega de ouro, pedras preciosas e captura de indígenas. Os jesuítas os catequizavam e ambos, religiosos e exploradores, dizimaram os nativos à sua maneira, ensinando latim e espalhando sífilis numa guerra de bacamartes contra flechas.
Neste ambiente úmido, repleto de mosquitos, a névoa era tão densa que se precipitava na forma de garoa, presente o ano todo, independente da estação. As trilhas foram pavimentadas, as mulas trocadas por veículos – embora existam mulas conduzindo veículos – e o trem ajudou a temperar as palavras com fumaça e dialetos, ligando o porto de Santos à Luz.
A cidade foi crescendo às margens das águas, de costas para o mar, subindo as encostas e terraplanando a idéia de paraíso, como um grande porto a desembarcar os sonhos de migrantes e imigrantes. Das buchadas à macarronada, das esfihas aos sushis, da fruta pão às baguetes, a capital da pizza está encharcada de sabor e história que o grande rio insiste em levar para o Oeste.
Hoje muitos destes cursos d’água estão escondidos, talvez envergonhados pelas suas entranhas à mostra, saturados da diarréia insana do consumo e das palafitas feitas de cimento e descaso, que roubaram a ciliaridade de suas margens como placas de colesterol e trigliceris. Os rios de Sampa são sua artéria, as veias as avenidas. Tudo está entupido. Não há mais bandeirantes, mas a caça continua entre tribos de balas perdidas e suas pedras escuras cheias de loucura. Não há mais jesuítas, mas os “sacerdotes” de hoje, que não falam latim, continuam a querer catequizar e vender indulgências. A garoa de hoje é apenas a poeira tóxica da inversão térmica.

Sampa merece um futuro melhor.
Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade terá sido mera (ou quimera) coincidência.
Edman Izipetto
25/01/2013

domingo, 30 de dezembro de 2012

O caramujo e o relógio


Uma orquídea resgatada do passeio público há um ano, pronta para virar lixo, com uma única folha, resolveu florir, cinco perfumadas flores brancas há cinco semanas intactas. Coloquei-a ao abrigo da chuva e do sol, onde a claridade e o ar não faltam. Após alguns dias, percebi um caramujo, desfilando seus rastros de prata sobre um broto de folha nova, já com algumas mastigadas. Instintivamente, dei-lhe um toque de bola de gude, antes que atingisse as flores. Não o vi mais.
Ele apareceu subindo pela parede e, não sei o porquê, eu o deixei nesta longa e sofrida caminhada para o alto, e avante. Ele estacionou num ponto e aí ficou, alheio a todos os fogos, todas as vitórias e derrotas, à rotação e intempéries, ao universo que para ele deve ser o nosso mundo, e a total ignorância do fim dos tempos ou não. Parece que observa da janela lateral, de seu trailer cinza, o passar das eras.
Bem na véspera do Natal, meu relógio de pêndulo resolveu parar, e ele teima em não continuar seu ritmo de badalar nas horas cheias e, mesmo com corda e impulsos que minhas mãos, sem muita paciência, teimam em lhe fornecer, ele vai diminuindo e para, empaca, não quer prosseguir. A vontade das engrenagens desafia a minha de ver este ano ficar no retrovisor.
Fico sentado na escada, entre o caramujo e o relógio, todos parados no tempo. Um ser vivo, muito mais próximo da origem da vida do que eu, que simplesmente “escolheu” um lugar para ficar, o outro – apenas dentes e inércia – esperando o impulso para lhe dar um sentido. Um relógio parado é surreal...
Eu na escada da vida, entre estas frestas paradas, à espera de um sopro de movimento, coloco minha mão sob o queixo, somos três inertes entre a subida e o retorno, entre colunas que dançam com as sombras num tango vienense, numa salsa irlandesa, num samba blue sem rimas óbvias ou sucesso no youtube.
Acerto a trigonometria do relógio, devolvo o molusco à natureza, intacto, e subo as escadas para um ano diferente, nem mais novo nem tão experiente, mas com 365 poentes. A surpresa já é bem melhor que a rotina, seja ela qual for.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Final de Ano


E o mundo não acabou embora, cientificamente, ele morra um pouco a cada dia. Nós estamos no meio da existência, por volta de 4,5 bilhões de anos. A humanidade, no sentido biológico, não ético, está há 5 mil anos (A terra não precisou muito de nós para evoluir...). Como dizem as pesquisas, com erro de alguns milênios para mais ou para menos. E o Natal, teoricamente, há 2012 anos. Mas é menos que isto, pois começou na era industrial para incentivar o consumo. Não calculei estatísticas, mas acho que é uma fração de segundos esta importância toda.
Nascimento de Jesus? Há controvérsias, mas se hoje há nascimentos que ainda se perdem nas datas, o que dirá há dois mil anos...O que vale é o ritual, reencontro com os seus, os meus e os nossos. Mas até hoje não me explicaram porque a morte dele é no calendário lunar – numa trilogia – e o nascimento no solar – num curta. As explicações costumam ser num minuto.
Já que a Terra não parou, o negócio é enfiar o pé na jaca, pois é isto que vai acontecer entre o Natal e o Réveillon. Comes e bebes, presentes, sorrisos amarelos ou sinceros, chás de camolila e hortelã, e a destilaria dos comentários que encontros assim fermentam sem catalizar... Não adianta, onde estiverem duas pessoas, uma terceira estará com a orelha ardendo.
A propósito, meu menu deste ano é a maionese caseira da mamma, risoto à moda de milão e codornas vestidas para matar (os dois últimos sob minhas panelas e caçarolas). Uma ceia à La Babeth, com enredo Felinniano e trilha sonora de Morricone. Comer, orar e amar (reza para mim é coisa de religião, orar é o mais próximo que chegamos da essência).
Não vou desejar nada, mesmo porque iria parecer que estou apenas devolvendo gentilezas (já que demorei a sair da toca). Quem me conhece sabe que quero a alegria de todos, pois adoro uma festa, principalmente à mesa. Festeggiare con allegria.
Enquanto escrevo, o brodo de carne, a base do risoto, curte sua temperatura liberando os perfumes do bouquet garni numa ordem de cheiros instigantes.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Outono das caminhadas

O dia mal ilumina e o senhor arranca-se da cama, arrebentando as linhas imaginárias tecidas durante a noite de sonhos adolescentes e limpando o suor da preguiça que cobre e salga de névoas a sua visão já debilitada. O cajado o espera na cabeceira - extensão dos seus horizontes já visitados - tremulando nas calejadas mãos cujo tempo marcou de vincas e manchas escuras.
A fumaça do café é um eterno “flash back”, remoçando suas vontades, despertando de vez a sedução noturna do sono eterno. A caminhada até o portão é o percorrer das estações, numa roleta russa sem saber qual delas vai abrir. O ferro range, emperra e reclama, não se sabe para espantar ou atrair, mas dá a idéia de uma abertura mais pesada do que a real.
A bengala é a primeira a sair da morada, em busca do pão de cada dia, a caminhada é um sinal de vida, embora nos mesmos lugares, os cenários vão se renovando com a experiência que seus ralos cabelos brancos teimam em revelar. O corpo esguio se curva ao peso das histórias, e cada passo é um folhear de livros de capa dura e páginas amareladas de tanto manuseio, ou esquecidas em prateleiras.
Os sapatos de bico fino com solado de couro competem com o surdo e contínuo eco da bengala, numa cadência de ruídos a 78 RPM no passeio público. É um gramofone quem cumprimenta conhecidos sem lembrança e desconhecidos rotineiros, ambos deixando dúvidas insanas numa memória já transbordando de reminiscências. Há passos de bailes lembrados em câimbras, alongados aqui e ali.
O idoso resmunga e ri, com a velocidade e sabedoria que a distância entre estas manifestações é a de uma moeda. Surfa no seu vinil, ondulando e cortando riscos, pois o caminho das pedras é seu GPS, embora ao seu redor pareça mais um lunático cambaleante e dependente.
Na metade do percurso as brumas caem, tirando as cores das referências, os sons do radar, iludindo as visões jovens a aguçadas. As calçadas e suas armadilhas não o surpreendem mais, nem assustam. Ele segue no seu tato e, dentro do seu trato, se desfaz no horizonte em busca de outra estação.

sexta-feira, 23 de março de 2012

O Humor generoso e verde de Chico

Hoje as piadas terão risos contidos. Ou talvez escrachadas gargalhadas. Não era intelectual, mas inteligente. Humorista sem contar piadas, ator de vestir personagens criados à sua imagem e semelhança. Chico Anysio não só resgatou os humoristas órfãos do rádio como lançou novos a sua própria sorte.
E por todo este talento ganhou a geladeira da Globo. Não tinha programa na grade, e não podia tê-lo em nenhum outro canal. Fez bem Jô Soares, saiu da emissora para fazer valer seu programa, o de entrevistas, e voltou por cima. Chico prendeu-se a contratos e só não caiu no ostracismo por ter ajudado muita gente. Seu contrato vencia este ano. Mas sua saúde não resistiu. Comentou futebol, fez novela, peitou o Galvão e nunca deixou de ser Palmeirense, embora o noticiário pasteurizado da Rede Globo não vá lembrar deste detalhe, que ele próprio fez questão de ressaltar no Programa do Jô.
O Jornal Nacional está cada vez mais parecendo o Jornal do Divorciado: O Bonner sem seu partner, e a Poeta sem rima esperando a hora de poder mandar. Comeram barriga na caída do Teixeira (contratos exclusivos dão nisto: comprometem) e vão comprar briga com a torcida do Palmeiras: nunca desprezem um clube de colônia.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Copa do Mundo e outros chutes

A cidade de São Paulo será uma maravilha neste ano. Sabe por que? O Serra decidiu ser candidato à prefeitura. E o nosso último imperador, lógico, depois de namorar e implodir o PT, abriu a guarda para o mestre. Explico, aquela revista que quer que você veja, mas não leia, já tem seu candidato. E a emissora que quer que você assista, mas não pense, já tem seu candidato. Prova?
Hoje, a primeira notícia do pasteurizado telejornal, já foi preparando o paulistano para o pedágio. Pois se você comete o sacrilégio de comprar um automóvel, com todos os impostos embutidos que vêm junto, é para guardá-lo na garagem, como troféu, conquista de status, para usá-lo em feriado prolongado. Porque o Serra, que conseguiu impor o pedágio no Rodoanel, que era "incobrável", vai cobrar para você trabalhar diariamente. Não é praga nem profecia, vai acontecer.
Por que a cidade será uma maravilha este ano? A grande mídia terá seu candidato. Eu não sei se o outros serão melhores, acho até difícil, mas fico muito preocupado quando a grande imprensa decide quem deve ser. São Paulo não é uma Leblon qualquer para ser enredo de novela. Não fomos capital de nada e província de nada. Somos o que conquistamos.Somos Bandeirantes!
Principalmente pela diversidade, embora projetemos um conservadorismo maior, muito maior, que a Metrópole comporte. São Paulo é Brasil e muito além, é o voto do Brasil. O Estado de São de Paulo é conservador, mas Sampa não. Afinal, a semana de 22 foi aqui né!
Para ver as prioridades da atual prefeitura, o Carnaval recebeu 25 milhões, e os estudantes das municipais, até agora, não receberam o material escolar, nem uniforme, hoje é 09 de março. Até onde eu sei, Sampa não é a cidade do Samba...
Até agora ninguém me explicou porque uma cidade com o autódromo de Interlagos precisa fazer um circuito de rua para a fórmula Indy. Expliquem à Rede Globo e a prefeitura que o aceitou. Aliás, falando desta rede de televisão, porque deixam de transmitir um Santos x Internacional (aliás os dois já ganharam a libertadores) para transmitir "C" x Nacioanal. Perderam no Ibope para Boca x Fluminense, lógico, um jogo mais importante.
Apenas para registrar, hoje o Globo Esporte deu uma entrevista exclusiva com Adriano, que fizeram uma força para os C... registrar na Libertadores, e à tarde o técnico filósofo do time o afastou até mesmo de um jogo do Paulistinha. Esta história de cobrir levantamento de estaca no estádio já está enchendo o saco.
Chega de exclusividade, abra para todas as emissoras e as mais competentes que prevaleçam. Se o Ricardo Teixeira tem culpa no cartório, os contratos que ele assinou também estão sob júdice. Principalmente os de exclusividade.
E sabe porque me sinto à vontade para falar contra o Serra? Porque sou Palmeirense. Ele é a pior coisa que aconteceria no Palmeiras se resolvesse ser Presidente. É o retrocesso. É isso que você quer para São Paulo?
Sobre o quê o subsecretário da Fifa disse do Brasil, nada a comentar de um país que só sabe fazer vinho (e o faz bem feito). Mas quando tentou ser império, chafurdou na neve, e quando enfrentou uns machos, pediu guarida. História é história.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Reality Show. Reality?

Resolvi sair das minhas férias – na verdade estou estudando para concurso público – porque não dá para ficar alheio, com uma pseudo-polêmica, como se isto fosse a coisa mais importante da vida (afinal, estamos no último ano da humanidade, então, #+&@-*¨
            A falta de conhecimento de história é realmente inebriante. O principal conglomerado de comunicação do país só surgiu durante a época, e aqui não é um trocadilho, do regime militar. Enquanto outras sofriam incêndios, perseguições, ela cresceu e dominou as regras até então. Tanto que se deu ao luxo de só entrar nas diretas já quando não tinha mais jeito. Boicotou até o limite do ibope. Ela e um jornal centenário que se diz guardião da democracia.
            Mas quem nasce torto... tentou direcionar as eleições. Primeiro no estado em que é base, depois em nível nacional. Forçou a barra contra Leonel Brizola, e depois contra Lula. Ajudou a eleger Collor. Fez uma força para eleger o Serra. Isto está na história, basta ler os jornais da época, não estou inventando ou deturpando nada. Ainda hoje, privilegia dois times de futebol no país, basta ver as transmissões, no que deveria corrigir a denominação de jornalismo esportivo para marketing esportivo. Esquece que as maiores torcidas não somam a maioria.
            Uma coisa é a vulgaridade em histórias fictícias, outras em supostos reality shows. Confinar pessoas comuns com a promessa de um prêmio vultoso, liberar bebidas e esperar o quê? Hoje qualquer espirro sai no youtube, não poderia ser diferente. E é só por isso que um participante foi eliminado, fez barulho, causou protestos e houve intervenção da justiça. Ela, a empresa, teve que ceder.
            Uma implosão em São Paulo, ao custo de três milhões de reais, que não implodiu; uma obra do governo do estado de São Paulo que veio a baixo com uma morte; a constatação que nada foi feito com o dinheiro público na serra fluminense, após o maior desastre natural do país; a seca nas áreas mais produtivas no sul do país, sem respaldo; o escândalo da farra do dinheiro, sem fiscalização, no judiciário. Isto é importante. Se dois bêbados transaram ou não, realmente, não me diz respeito.
            Mesmo com o sorriso amarelo daquele que já foi um jornalista na vida, mas se submeteu e, além disto, escreveu um bibliografia puxando o saco do patrão, esquecendo todos os princípios históricos que nortearam a vida do empresário, e que servem de base para verdadeiros jornalistas. Não me interessam. Lamento ter que percorrer uma avenida, na minha cidade, com o nome dele. Há pessoas mais importantes e verdadeiras que merecem nomear um logradouro, ainda mais na massa cinzenta deste país.
            Lamento quem assiste ao “grande” jornal e lê a “grande” revista. Esta última, li pasmo o editorial de final de ano, quando o herdeiro mandatário, que só o é por herança, reclama que não basta à presidenta demitir ministros, mas consertar a máquina. E ele, que apenas afasta os últimos, a massa de trabalhadores que hoje não precisa mais de diplomas, e mantêm os mesmos antigos e caquéticos no topo do editorial (não dá para respeitar uma publicação que elegeu o Último Imperador como político do ano).

sábado, 31 de dezembro de 2011

Caminhando para 2012

            Às portas do último ano da humanidade – vou provar que os Maias estão certos – é curioso observar como as pessoas ficam mais afáveis nesta época do ano, desde que não sejam aquelas chatas que resolvem fazer despesa do mês hoje, ou pagar conta na fila da casa lotérica, onde a maioria sonha com a Mega da virada, virada de plano, de calendário, de taça...
            Primeiro a caminhada pelo sobe e desce do meu bairro, com poucos carros pelas ruas, mas muita gente no portão lavando a sujeira de um ano inteiro para começar o novo zerado. Vizinhos que não se cumprimentam o ano todo trocam notícias, receitas ou disputam vantagens. Crianças entram no jogo ao comparar seus brinquedos, que o Noel que não tem preço (mas para todas as outras coisas sim) lhes deixou sob a árvore de plástico com pisca led.
            Eu sou do tempo de cumprimentar as pessoas, pedir por favor, e outras atitudes dinossáuricas, que o meteoro da tecnologia e modernidade está extinguindo. Falando o português claro, esta geração é bem da mal educada. Mas eu não dei conta de retribuir tantos sorrisos e felicitações das pessoas que conheço de vista, e das que nunca vi mais gordas. E olha que meu bairro é peso pesado.
            E por falar em balança, o delicioso aroma de assados torna a caminhada em prol da saúde um passeio pelas delícias da gula, inundando minha boca de água, em que pese, sem trocadilho, a garoa que chora pelos lados da Serra do Mar. Cheiros de temperos, carnes e perfumes de flores comestíveis, que se misturam neste ritual de passagem. Dá para fazer um seriado de Babet’s party.
            São Silvestre já está no alongamento, mas sabemos todos que os quenianos devem ganhar mais uma. Fugir de gueopardos lhes dá o condicionamento necessário para tanto. Nossa onça não é lá muita adepta de corridas, preferindo a tocaia e o bote certeiro. Não sei por que deram ao leão a representação do imposto de renda, nosso felino seria muito mais apropriado.
            E 2012 vai ter muitos feriados prolongados. Um político do Olimpo de Brasília está com a idéia fixa de transferir, numa canetada, estas datas que caem no meio da semana, para segunda-feira, e assim evitar a emenda “meia nove”. Porque o País não pode parar... Para ilustríssimo, trabalho é apertar parafuso ou digitar números, esquecendo que a única coisa que para nestes feriadões é o trânsito das estradas.
            As cidades turísticas e a indústria do entretenimento, nos delírios cerebrais do preocupadíssimo representante do povo, não entram na estatística do PIB, e os trabalhadores só devem descansar ou passear nas suas férias anuais. Lembremos que a semana deles, políticos, é de terça a quinta, com dois recessos por ano, fora as fugidas para Carnaval, festas juninas e eleições, sem nenhum prejuízo das gordas remunerações a que se deram ao direito.
            O ano que chega é bissexto, teremos um dia a mais para comemorar o gnocchi da sorte, 29 de fevereiro, e no primeiro dia entra a Lua crescente. Os moradores de Juazeiro, na Bahia, e Petrolina, em Pernambuco, por conta do horário de verão, vão ter duas festas de réveillon separadas apenas pelo Rio São Francisco. E por que o mundo acaba em 2012?
            Os brasileiros são os que mais gastam nos EUA, em New York já tem até informações turísticas em português. Os pop stars não estão mais esperando a aposentadoria para se apresentar por aqui. O time da marginal sem número, em vias de assentamento para a última estação do metrô, disputará a terceira Libertadores seguida, recorde em 100 anos. O FMI pediu grana emprestada para nós. A China vai liberar visitações na cidade proibida. O El Niño já está chegando à adolescência. As psicografias já podem ser feitas por Ipods (deve ser coisa do Jobs, ele não descansa).

Edman Izipetto
Um ótimo 2012 para todos, espero estar junto até o fim dos tempos.
31/12/2011

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Entre as festas

            É como a quarentena no deserto do ócio. Os sete dias que separam o Natal do Réveillon são um suplício para quem está trabalhando, para quem não está, e para quem precisa que os outros trabalhem.
            Você que ganhou o prêmio de funcionário do mês, não podia dizer não ao chefe. Realmente é um reconhecimento e tanto vir sozinho nesta semana morna, mas você está com a honra de ficar com a chave, abrir o escritório, sempre pode haver uma correspondência importante. E não tem trânsito mesmo, mas o que importa isto se para você o ônibus não vem vazio e demora mais para passar, pois os donos da empresa também acham que ninguém trabalha nesta semana. E vai comer resto do Natal porque os restaurantes entraram em férias coletivas.
            E você, que pensou que ia botar bermuda e chinelo de dedo, tua parceira já fechou toda a sua agenda. Primeiro os consertos: torneiras pingando, chuveiro espirrando, chave elétrica caindo, telhas trincadas, se bobear vai querer pintar a casa toda... E você, dentro da ressaca normal desta semana, com toda aquela vontade de quem não acordou ainda, vai procurar a caixa de ferramentas para evitar curto circuito em casa. E num misto de alegria contida em euforia, descobre que teu cunhado levou tuas melhores ferramentas e os acessórios para pequenos consertos.
            É a deixa para sair de casa, quebrar a rotina que você não projetou e, quem sabe, encontrar um conhecido para uma conversa de tremoços e cerveja. Mas a clarividência feminina é infalível. Ela vem com uma lista pronta de supermercado, já que você vai sair, já que vai tirar o cartão do bolso, já que... Você faz qualquer coisa para conseguir um álibi. Na tua cabeça, compra o mínimo no comércio local e tira o resto do dia para vadiar.
            O comércio local está aproveitando a semana para reformar. Acreditando que é só no seu bairro, vai ao próximo e é a mesma coisa. Agora você entende um pouco o que quer dizer crescimento econômico. A contra gosto, segue para um centro de compras mais complexo e já começa a sentir o drama na entrada, com fila para estacionar – quero minha semana de folga – e os apressadinhos querendo lhe furar a vez. O Natal já não passou?
            Acha que era só para trocar presentes? Parece que todos resolveram praticar bricolagem. Precisou disputar o último rolo de veda rosca, a fita isolante teve que ser Pink e as ferramentas, bendito cunhado, só havia os conjuntos completos, caríssimos e fora de questão por hora. A meia dúzia de telhas vai ter que esperar, muito embora o vendedor tenha lhe tentado empurrar outro modelo garantindo que dava certo.
            Seu primeiro dia de folga já está anoitecendo, você não almoçou e ainda tem que encarar o supermercado. Os caixas estão com filas intermináveis, com famílias inteiras se abastecendo para seguir viagem. A praça de alimentação parece um acampamento de desabrigados, com restos de embalagens e marcas de mostarda e catchup entre os banquinhos.
Vai no balcão mesmo, entre tapas e resmungos consegue pedir um chope e um pastel “frito na hora” que a atendente retira da vitrine aquecida. Massa emborrachada (daria um ótimo veda rosca) e a bebida, morna, choca e quase transparente. Será que se eu pedir um café ele virá gelado? Que o Réveillon chegue logo para tudo voltar ao normal, eu pegando trânsito para apenas ir trabalhar.

Edman Izipetto
29/12/11

sábado, 24 de dezembro de 2011

O último Natal da humanidade...

... do ano de 2011 começa hoje.

Tem muita gente que gosta, algumas se entristecem e poucas, muito
poucas, detestam. Assim como não se explica a euforia, o oposto também
não tem razão. A única verdade do Natal é que era uma festa pagã
ligada ao sostício de inverno, quando as noites são mais longas no
hemisfério norte, daí a tradição de se enfeitar de luzes, comer
exageradamente e botar o pé no barril (lá não tem jaca, a jaca é
nossa).
A igreja tentou combater o "paganismo" e se apropriou da data,
inventando o nascimento de Jesus próximo ao sostício; é o pegaram para
Cristo porque não há registros que garantam que ele tenha nascido
neste ou em qualquer outro dia. Tanto que a crucificação não tem dia
certo, é uma sexta-feira...Mas a idéia da Igreja não deu muito certo
e, quando houve a reforma protestante, a idéia de Natal foi abolida.
Hoje temos uma festa pagã com princípios cristãos, porque nesta época
é que ocorrem grandes manifestações de amor ao próximo e distribuição
de presentes. Aliás, o Noel é uma invenção de dois novaiorquinos, lá
pelos tempos da revolução industrial. Os protestantes da nova
Inglaterra, sabendo da origem das festas Natalinas, tentaram proibi-la
da colônia. Não sei os nomes, mas um inventou a história de St Klaus,
com a distribuição de presentes (um papa de nome Nicolau tinha o
costume de presentear), principalmente porque criança antes não era
vista como tal, e sim como mão de obra barata, e outro, ilustrador,
desenhou o Noel como o vemos hoje, e foi o mesmo ilustrador que criou
a figura do Tio San e os bichos dos dois partidos políticos de lá.
Hoje Noel é mais lembrado que a pseudo data natalina, mas ainda bem
que os princípios pagãos persistiram, porque ia ser muito chato jejuar
num dia como este.
E para nós, aqui no hemisfério sul dos trópicos, é verão, os dias são
mais longos que as noites, no máximo cai granizo e nossa lenda mais
apropriada seria um saci, apenas de sunga, escondendo presentes aqui e
acolá. E temos jaca para poder por o pé, já que, segundo os Maias,
este é o último Natal da humanidade.

Ho, Ho, Ho, Feliz Natal, e sigo na minha canoa puxada por oito botos cor-de-rosa

domingo, 11 de dezembro de 2011

Prós e contras de ir à Gonçalves

Lugares “novos” sempre atiçam, e quando estão na moda então...parece que você não tomou banho se desconhecer o lugar, e aparece tatuado na testa que “não estive lá”. Mas estamos em outros tempos, politicamente corretos ou não, você não pode simplesmente ir a um lugar, tem que participar.

Caso você seja um predador da natureza, isto mesmo, predador, não vá à Gonçalves, Minas Gerais, Sul. Lá é uma das últimas reminiscências das florestas de araucárias do mundo, se você não souber o que a última frase quis dizer, estude uns 6 anos antes de ir...

Mas não é só isso. Lá também tem resquícios de mata atlântica de altitude. PQP, o que é isto? Não é mato que tenha atitude É a Mata Atlântica que, inicialmente os portugueses, e depois os brasilianos, dizimaram, mas que é a responsável de quase toda a água que brota em solo brasileiro. Acreditem, a água é o petróleo de amanhã...

Voltemos ao turista pret a port. Você recicla seu lixo? Você usa seu carro racionalmente? Sabe o que é usar o carro racionalmente? Você escuta o seu som de maneira que ninguém saiba teu péssimo gosto? Você deixa rastros de plásticos por onde anda? Você carrega suas neuras na bagagem da sua SUV? Vá para a PQP, mas não para Gonçalves...

Porque lá ainda existem olhos d’água. E águas não brotam de calçamentos ou pastos, brotam de florestas. Daquelas bem antigas, de meio metro de folhas secas se decompondo no seu tempo de existir. Nem antes, nem depois.

Deixe suas grifes na cidade, dispa-se de seus preconceitos. Gonçalves acolhe as diferenças, de altitude, de atitude, de desafenças. Não há espaço para radicalismos em Gonçalves, porque a natureza engole naturalmente o que é demais em suas névoas eternas e intangíveis, silenciosamente.

Por favor, não leve seu som, seja ele 78 rpm ou MP3. Harmonize-se com o pio do gavião, a fanfarra dos periquitos ou a algazarra das siriemas. Se quiser ouvir barulho, continue onde está, não se desperdice subindo a serra porque os melhores lugares de ouvir o que você consegue estão ai, onde você está. Aqui o silêncio é uma ópera...

E se você é daqueles que come qualquer coisa, continue onde está. Não saberá apreciar os Sabores da Mantiqueira, não entenderá a proposta da Kitanda, não pensará o que é degustar os pratos do Chiquinho, do Toninho ou da Vilma, ou o risoto de pinhão do Demeter na Roça. Ou a prosa etílica no Bar do Marcelo. Tem mais coisa, lógico que tem, você achou que eu ia entregar o tabuleiro de mão beijada? Tem a feira dos Orgânicos da Mantiqueira, aos sábados, a partir das 8h.

Se você quer consumir, vá para outro lugar, se quiser evoluir, vá para Gonçalves.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Carroceiros

A negra de cabelos desgrenhados, devidamente contidos por um lenço vinho com flores coloridas, vai rebocando sua carroça de eixo único, lotada de quinquilharias, papelão e peças garimpadas aqui e acolá, no que pode ser sua casa cor. Um cachorro pequeno, branco encardido, amarrado com fio elétrico - no que a senhora teve o cuidado de deixar o plug balançando na pseudo coleira como um enfeite - caminha ao lado, atento a todo o movimento. No meio fio, ignora a buzina dos automóveis, que na rua estreita espremem-se para fugir ao intruso meio de transporte.
Na calçada invadida de mesinhas, grupos se reúnem à mesa do bar, contando histórias da PanAm e da primeira Coca-Cola que tomaram, no jogo que não decidiu nada para suas vidas, nas fofocas sobre a chefia e o próprio trabalho, que é sempre impecável, e na falta de grana para todas as outras coisas que não seja a cerveja de uma sexta-feira à noite. A vida é um moinho, que processa o malte, o levedo e o lúpulo, fermentando idéias e ideais de uma vida perfeita.
A senhora da carroça, vestida de um surrado vestido amarelo canário que lhe cobre até as coxas, estas cobertas com um jeans repleto de manchas escuras, caminha descalça entre a calçada e a rua frenética de faróis e piscas, não se importando com os sinais de baixo calão dos motociclistas, que são obrigados a diminuir e desviar sua corrida. O cachorro não late, apenas alterna o movimento do rabo como se estivesse de prontidão, apto a defender sua protetora.
Cansada, ela pára em frente a um dos barzinhos. Um grupo de afrouxados engravatados, cujas camisas têm suas mangas arriadas, começa a zombar da mulher, com a coragem etílica própria dos imbecís. Outro grupo do mesmo espaço pede que parem com a troça, no que o restante do bar concorda, em coro, e como uma injeção de glicose, os idiotas vestidos anti-socialmente são obrigados a recolher e engolir, aos goles, o palavreado totalmente covarde e demodé.
Os que haviam defendido a carroceira inicialmente pegam a porção de fritas, recém entregue à mesa, e a oferecem à mulher que não recusa. Come uma a uma, numa elegância sem miséria, sempre dividindo com o cão que, feliz, fica de pé sem latir. Um mulato esquálido e altivo, carregando uma jaqueta cheia de buracos, se aproxima. Retira da vestimenta um botão murcho de rosa vermelha e o entrega à mulher. Ela sorri, um sorriso alvo de quem aceitou o mimo e divide as batatas com o galanteador. Os freqüentadores do bar aplaudem, até os ignorantes que já pediram a conta, talvez tomados de vergonhosa ressaca.
O casal segue, ele toma os estribos da carroça, ela fica ao seu lado, e sob uma Lua crescente que sorri amarela, vão se tornar invisíveis aos olhares e luzes da cidade grande...

Edman Izipetto
30/09/2011

Esta é uma obra de ficção, que sinceramente gostaria que não houvesse qualquer semelhança ou coincidência com pessoas ou a vida real.